A Nightmare on Elm Street (1984)
escrito por Wilmer da Silva, um enfant terrible que pretende chocar as bases institucionais do cinema português e cuja opinião é procurada por variadíssimas publicações sobre a matéria.
Publicado em 02-11-2009 | 1 comentário
A Nightmare on Elm Street. E um pouco sobre slashers
Halloween. Uma das muitas tradições anglo-saxónicas que se infiltrou e misturou com as tradições locais do mundo ocidental. No fundo, de forma similar, um pouco por todo o planeta celebra-se e recorda-se a morte de familiares e amigos. Naturalmente é uma altura cheia de medos e superstições, elementos que se fazem acompanhar, como é habitual, por rituais colectivos e por narrativas de terror transmitidas oralmente de geração em geração. Estas narrativas são uma forma de racionalizar e expurgar aquilo que desconhecemos e nos atormenta.
Neste Halloween, não podia deixar de recordar um dos meus filmes de terror favoritos, a obra-prima do realizador Wes Craven, A Nightmare on Elm Street. Este autor soube usar na perfeição a sua formação em literatura e em psicologia, conseguindo criar um dos psicopatas mais distorcidos da história do cinema, Freddy Krueger. O que tem de especial este assassino em comparação com outros? Bem, Freddy está morto desde o princípio, ou seja é fisicamente inatingível, não passa de uma lenda local de um antigo assassino em série. Mas assim que começa o filme, Krueger manifesta-se nos pesadelos das suas vítimas, as quais só escapam com vida se conseguirem acordar a tempo. Ou seja, Freddy Krueger dá cara e forma ao medo que todos temos quando estamos às escuras no quarto a tentar dormir, àquele “monstro” que quando somos pequenos identificamos como papão. Ele é dono e senhor do mundo dos pesadelos, mundo surreal que eventualmente cada um de nós “visita”, daí que seja fácil perceber que Krueger seja um dos vilões cinematográficos mais icónicos e universais.
Este filme é um slasher movie, um sub-género de terror que teve o seu auge na década de 80, altura em que a sua fórmula narrativa foi usada até à exaustão sem que lhe fosse injectada muita inovação. Em termos latos a fórmula da narrativa deste filmes consiste em ter: um psicopata assassino que usa um objecto cortante como arma (quase sempre é um homem com um passado perturbante); o psicopata persegue um grupo de adolescentes
que iniciaram a sua vida sexual recentemente e/ou comete actos de libertinagem associados com vícios, como o álcool; é habitual haver conflito geracional entre pais e filhos; o passado do psicopata está relacionado de alguma forma com os pais dos adolescentes perseguidos; no final do filme todo o grupo de adolescente é assassinado, excepto uma rapariga, a final girl, aquela que conseguiu superar os seus medos e fez frente ao psicopata. Curiosamente, é a única rapariga do grupo que conseguiu preservar a sua virgindade.
A Nightmare on Elm Street vai um pouco além dos clichés do género. Por um lado pela excepcional elaboração do psicopata e daquilo que ele representa a nível do subconsciente universal, por outro lado pela atmosfera onírica quase permanente do filme, a qual envolve o espectador numa constante incerteza e angústia. É de realçar que dois terços do filme ocorrem dentro dos pesadelos das personagens.
A banda sonora é simples e crua, é funcional mas não é extraordinária. As notas graves e o uso de sintetizadores são típicos nos slashers. É de notar que a banda sonora parece uma canção de embalar, o que resulta num conceito muito original e contrastante, pois neste filme dormir representa morrer. Portanto, a banda sonora deste filme ao ser suave e serena tem um efeito distorcido e perverso.
O desempenho dos actores, como é habitual nestes filmes, deixa muito a desejar. Se bem que os diálogos não são os melhores, mas isso já é problema de escrita de argumento. Ser atraente e saber gritar são os principais atributos necessários para entrar no elenco.
Em termos técnicos destaco os efeitos especiais, actualmente completamente datados, mas na altura muito inovadores. Destaco a morte de Tina, a primeira vítima, e a morte de Glen, personagem interpretada por Johnny Depp, no seu primeiro trabalho como actor. São duas
das cenas mais gore do cinema, em que usaram litros e litros de sangue falso. Destaco também a cena em que Freddy está a tentar atravessar a parede do quarto onde a final girl está a dormir, quebrando todas as leis da física. Digamos que os efeitos especiais serviram na perfeição para elaborar o entretenimento gore que todos nós, consciente ou inconscientemente, de forma assumida ou não, achamos visualmente gratificante. E serviram também para ilustrar os dois planos de realidade existentes neste filme, o plano real e o plano onírico.
Parte do processo degenerativo dos slashers foi caírem no ridículo e sofrerem exploração máxima através de sequelas. O caso de Freddy Krueger é um bom exemplo, já que foram feitas 7 sequelas e uma série televisiva. No original, ele quase não fala, mas de sequela para sequela Krueger fica mais conversador e mais cómico. Só no meio da década de 90 é que os slashers resurgiram, graças à trilogia Scream, também da autoria de Wes Craven. Com o sucesso desta trilogia surgiram muitos outros slashers que imitavam a nova fórmula. Qual a nova fórmula? Simples: assumir e gozar com a fórmula antiga, homenagear os momentos clichés criados pelos slashers clássicos e finalizar com uma grande reviravolta no fim, em que finalmente descobrimos a identidade do assassino no clímax final. Mas esta nova fórmula consumiu-se ainda mais rápido que a anterior.
Actualmente vive-se um revivalismo por parte de realizadores admiradores dos slashers clássicos, sendo habitual encontrarmos em cartaz, um pouco por todo o país, os remakes dos slashers com maior sucesso, por
exemplo: Halloween (de Rob Zombie), The Texas Chainsaw Massacre (de Marcus Nispel) e, em 2010, o remake do primeiro filme de Freddy Krueger. São adaptações modernas mais ou menos livres, não primam pela originalidade, mas cativam novos fãs para o género. Contudo, têm surgido filmes de terror originais que nada devem a fórmulas típicas de sucesso. Rob Zombie (House of 1000 corpses), Eli Roth (Hostel) e James Wan (Saw) são os três autores de terror mais importantes da actualidade e os responsáveis por esta lufada de ar fresco. Estes três autores têm em comum terem um ponto de vista narrativo que “apoia” os actos dos psicopatas, e destacarem cada morte de forma apoteótica, celebrando o gore criado por efeitos especiais muito realistas. Quer se goste ou não, a verdade é que o trabalho deste três realizadores reanimou o género e voltou a levar espectadores às salas de cinema para verem terror. Um terror mais chocante, é verdade, mas pelo menos já não se fica confuso se estamos a ver uma comédia ou um filme de terror. Passadas quase duas décadas, a violência que vemos no ecrã voltou a ter impacto em nós. Se ainda se ouvem risos na sala de cinema durante um filme de terror, são risos de sadismo.
Wilmer da Silva
A Nightmare on Elm Street
1984
Filme de Wes Craven
Classificação final: 16/20
Maria Blatter escreveu, a 08-11-2009:
É trágico que os filmes de terror actualmente sejam cópias de cópias de cópias... Mas o Nightmare on Elm Street foi não só o primeiro filme de terror que vi, mas o que mais me meteu medo (era muito novinha quando o vi pela primeira vez); pelo menos até me ter cruzado com os filmes de Dario Argento. Depois de ler este artigo reconsidero ir ver o filme reciclado (pela nona vez?) com alguma expectativa de que se rir não será do nível de gore disparatado nem de sadismo, mas sim de nervoso miudinho... a ver vamos!

