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Star Wars Episode I - The Phantom Menace

Wilmer da Silvaescrito por Wilmer da Silva, um enfant terrible que pretende chocar as bases institucionais do cinema português e cuja opinião é procurada por variadíssimas publicações sobre a matéria.

Publicado em 19-11-2009 | 4 comentários

 

 

 

Star Wars Episode I - The Phantom Menace (1999)

 

Em 1999 duas questões pairavam no ar, especialmente no meio cibernauta. A primeira: “Será que o ano 2000 iria voltar a nossa tecnologia contra a nossa civilização?”; a segunda: “Como será a nova saga de Star Wars?” - a resposta para ambas questões revelou ser uma realidade enfadonha, a mais pura desilusão. A entrada no novo milénio não teve nem uma pequena dose de apocalipse e o tão esperado primeiro episódio da mítica saga resultou ser apenas um trampolim de lançamento para merchandising. George Lucas ter enchido ainda mais os bolsos através da venda de bonecada era uma consequência esperada, visto que a habilidade que ele tem para criar novos universos cheios de personagens únicos é inegável. Mas será que queremos a bonecada de filmes insípidos e sem carisma? Eu de certeza que não quero. O irónico é que quem é fã, como eu sou, não resiste ao fascínio da memorabilia. A parte triste é que mais tarde ou mais cedo esses objectos icónicos vão-nos remeter para os filmes e para a desilusão que eles foram.

As minhas primeiras memórias cinematográficas são cenas da saga original (episódios 4 a 6), vistas na primeira TV a cores que tive. Em 1997, Lucas deu a oportunidade aos fãs mais novos de ver a saga pela primeira vez nas salas de cinema com remasterização sonora e tratamento digital da imagem. Ao mesmo tempo foi anunciado que o caminho que Anakin Skywalker tomou até se tornar Darth Vader iria ser retratado numa nova trilogia, sendo que o primeiro episódio sairia em 1999. Voltar a ver a ver a saga numa sala de cinema foi uma óptima experiência cinematográfica, algo com aquela “magia” que define Star Wars. Neste re-lançamento foram incluídos alguns extras: melhores efeitos especiais, correcções gráficas, e mesmo novas cenas de curta duração. Estas modificações, que obviamente não agradaram aos mais puristas, permitiram antever a forte aposta que a nova trilogia iria ter na construção de personagens inteiramente digitais. Mas em geral os fãs aceitaram a colagem digital feita para esta versão de re-lançamento.

Darth MaulO entusiasmo na comunidade de fãs foi fenomenal. E a internet, que há 12 anos atrás era uma sombra do que é hoje em termos de ferramentas virtuais, foi pela primeira vez um motor gerador de milhares de rumores e de centenas de propostas de argumentos para o episódio 1. Essa fertilidade criativa é algo natural, já que Darth Vader é considerado, por inúmeras votações feitas a cinéfilos, o melhor vilão da história do cinema. Imaginar e escrever como Anakin Skywalker passou para o lado negro da Força e se tornou em Darth Vader é um exercício criativo que qualquer entusiasta de Star Wars teria tido o prazer de fazer antes da estreia da primeira prequela. O único que parece ter querido fugir a esta tarefa foi a pessoa que acabou por escrever e realizar as três prequelas, o senhor George Lucas. Prova disso foram os vários convites que fez a argumentistas para desenvolverem uma história. Destaco um dos convidados: Lawrence Kasdan, argumentista do episódio 5 e 6, o qual recusou, convencendo Lucas a desenvolver os três novos filmes para assim evitar desvios daquilo que ele realmente pretende. Pois... Muito obrigado, Kasdan...

Olhando para trás, considero que Lucas estava mais interessado em experimentar as novas câmaras digitais em alta definição e em criar cenários e personagens 100% digitais do que em escrever uma boa história e dirigir o óptimo elenco que reuniu. O que é uma pena, pois alguns dos argumentos que foram surgindo na internet eram bastante interessantes.

 

Não me vou alongar muito em termos de argumento e realização, está mais que provado que George Lucas é péssimo em ambas funções, pelo menos na actualidade. Sou fã de Star Wars (saga original) e digo-o com grande pesar: George Lucas fez asneira e era preferível ter-nos poupado ao sofrimento. Tudo fica claro quando opomos a saga original a estas prequelas.

A saga original:

  • Tem uma narrativa baseada em aspectos mitológicos
  • A Força funciona como uma personagem dentro dos filmes, algo omnipresente e próximo da filosofia yin yang
  • Tem aspectos novelescos (toques de incesto, romance amor/ódio, o vilão revela que é pai do herói) explorados de uma forma interessante e nada lamechas
  • É uma saga épica passada no espaço, havendo uma luta entre o Império e os rebeldes
  • Tem um humor subtil atribuindo carisma e empatia a todas as personagens
  • Tem dos melhores anti-hérois – Han Solo – e o melhor vilão do cinema – Darth Vader

A nova trilogia:

  • Tem uma narrativa infantil, confusa e em nada imprevisível (por exemplo: C-3PO foi construído por Anakin Skywalker – é uma incongruência insultuosa)
  • A Força é transformada em algo físico que pode ser contabilizada, em que cada Jedi tem um nível de Força, ou seja, perde-se toda a mitologia e a espiritualidade
  • Anakin Skywalker é uma criança e vai ter filhos com uma rainha dez anos mais velha (será que é só a mim que isto incomoda?)
  • Os cenários parecem um videojogo
  • As linhas de diálogo são péssimas e a direcção de actores é inexistente, o que faz com que as personagens digitais tenham melhores interpretações do que as personagens interpretadas por grandes actores como Ewan McGregor e Liam Neeson
  • Empatia com qualquer personagem em qualquer das três prequelas é bastante difícil, visto que são todas aborrecidas, exceptuando Darth Maul (tem um sabre de luz com duas lâminas e luta como ninguém em qualquer dos 6 episódios – empatia imediata, contudo morre logo na primeira prequela)
  • O humor característico de Star Wars é completamente esquecido em The Phantom Menace, em substituição temos a tentativa de humor físico por parte da pior personagem de sempre: Jar Jar Binks

Não dou uma classificação final menor a este filme pois, como já disse, tem a personagem Darth Maul, interpretada de forma excelente pelo famoso actor e duplo Ray Park, o qual continuou ligado aos novos filmes para fazer a coreografia dos combates. E neste aspecto qualquer entusiasta deste universo ficcional ficou Pod Racersbem servido, até porque as expectativas de vermos lutas soberbas entre Jedis e Siths foram superadas. A corrida de pod-racers sai um bocado da história principal (o que não é propriamente mau), mas é sem dúvida o segundo ponto alto deste filme. Foi uma ideia bem construída por parte de George Lucas para homenagear o filme Ben-Hur.Um terceiro aspecto positivo neste filme, que se estende pelas duas outras prequelas, é a composição musical de John Williams. Destaco o Duel of the Fates, tema musical cheio de tensão em que a orquestra é acompanhada por um coro a cantar em sânscrito. O combate contra Darth Maul é acompanhado por este tema, sendo o clímax do filme.

Nos dois filmes seguintes (Attack of The Clones e Revenge of the Sith)verificou-se um esforço consciente para melhorar certos aspectos originários da primeira prequela. Por exemplo: o episódio 2 esforça-se por ter aquele humor tradicional de Star Wars, uma espécie de humor fatalista que costuma surgir nos momentos em que várias personagens estão à beira da morte. E o episódio 3, à semelhança do episódio 5, é um filme mais negro no seu tom narrativo, distanciando-se assim da infantilidade pateta de The Phantom Menace. Das três prequelas é o único razoável, já que faz um esforço por “cozer” as pontas soltas entre as duas trilogias. É neste filme que finalmente vemos a tão esperada luta entre Obi-Wan Kenobi e Anakin Skywalker, e a consequente transformação deste último em Darth Vader. O episódio 3 distingue-se por ser o que mostra mais respeito aos fãs, pois tenta preservar aspectos estruturantes do universo Star Wars, em vez de os destruir. Contudo, em conjunto, a nova trilogia ficou muito aquém das expectativas e do seu verdadeiro potencial.

Tudo bem, o génio criador de Star Wars é George Lucas e mais ninguém. E se o artista quiser destruir a sua obra, que assim seja, é legítimo. Mas sendo a sua obra um dos legados mais importantes da cultura Pop mundial, acho que ele deveria ter tido algum respeito pelos fãs e ter feito um melhor trabalho. Afinal o artista não é nada sem o seu público. Mas não se trata apenas de corresponder às expectativas, trata-se também de evitar fazer um filme medíocre Star Wars Episode I The Phantom Menace Postercom a insígnia Star Wars. O mesmo aconteceucom o novo Indiana Jones, outro universo ficcional criado de raiz por George Lucas. Spielberg sugere introduzir extraterrestres num filme de Indiana Jones e George Lucas de bom grado pensa: “Já que estraguei Star Wars, porque não também estragar o Indy?” (leia-se com tom irónico). Sinceramente acho que o público merece algo bem melhor do que estas crises narcisistas e auto-destrutivas. Por outro lado, espero que o público também exija mais à sétima arte.

 

Star Wars Episode I
The Phantom Menace

1999

George Lucas

Classificação final: 6/20

 

 

 

Comentários

 

Didicas escreveu, a 19-11-2009:

Eu pessoalmente detestei o vilão Darth Maul. Fez-me lembrar aqueles anúncios de Natal sobre figurinhas de acção do Action Man, talvez pelo facto de ser mudo. Achei que foi muito mal conseguido, apesar do seu espetacular lightsaber com duas "lâminas". Além disso, é uma personagem muito pouco desenvolvida, basicamente aparece, faz as suas tropelias e depois morre, qual personagem secundária de uma série de acção.

E para agravar a situação, os seus defeitos são amplificados pelo facto de viver na sombra de Darth Vader, o vilão do filme Star Wars anterior.

Gostei de mais esta análise cinematográfica. Gostaria de no futuro ver Wilmer a falar sobre um filme que esteja ainda nas salas de cinema ou que tenha saído há muito pouco tempo, como por exemplo Inglorious Basterds, para citar um exemplo da minha lista pessoal de grandes filmes actuais.

 

Guilherme escreveu, a 20-11-2009:

Correndo o risco de envergonhar publicamente o Wilmar, Wilson, Vilmer, ou lá como ele se chama, queria aqui revelar que este possui uma figura de acção, três posters e duas t-shirts do Jar-Jar Binks.

 

Maria Blatter escreveu, a 4-12-2009:

Faço minhas as tuas palavras...possivelmente na classificação final até seria mais negativa. Não apenas porque o filme em sim, ou seja esquecendo a SAGA, é fraco, mas sobretudo porque não cumpriu o que se esperava dentro da saga, ainda que a expectativa pudesse ser um pouco desmedida.

Relembro apenas uma cena que por ser tão má (não tenho outra palavra e blargh não conta), não consigo esquecer: a Padmé a morrer no episódio 3. Como é possível aquela cena não ter sido re-escrita? Nunca me vou esquecer das pessoas, não, dos fãs, no cinema um pouco embaraçados.

Pior do que um filme ser mau, é ser uma desilusão. E foi.

Em relação ao Indy, herói menos sobrenatural no meu imaginário (sim, apesar de sacerdotes a arrancar corações with their bare hands), este último filme simplesmente não conta. Continuo a contar 3 e o 4º não existiu. Aterrar o Indy num argumento em que se mistura com seres de outra dimensão foi passar os limites do razoável. O arqueólogo aventureiro simplesmente merece personagens - com personalidade, ainda que vil- melhores. E os fãs também não esperam menos.

Vamos ver o que se segue com o Junior ao quadrado...mas não agoira nada de bom.

Por fim, relembro aos mais distraídos que em breve teremos outro filme do Homem-Aranha! É verdade que o último foi revoltante (quase me levou às lágrimas), mas o segundo foi muito decente, fora alguns detalhes, claro.  Fica aqui feito um pedido ao Billy: quando vires o próximo filme faz uma crítica sobre os filmes do friendly neighborhood Spider-Man!!

 

daniboy escreveu, a 4-12-2009:

Star Wars é um filme infantil, o próprio George Lucas já disse isso. Os fans é que continuam a insistir que se trata de um filme sério e profundo.

Em relação aos episódio I, concordo com Wilmer em quase tudo que aqui foi dito. Achei que os melhores aspectos do filme foram a pod race (foi a battle of Hoth dos novos episódios) e Darth Maul. Ao contrário de Didicas, creio que vilão não podia ter sido mais bem conseguido, especialmente no que se refere à ausência de voice acting. Sem dúvida o vilão mais carismático da série, depois de Vader.

Aproveito o comentário pra propor alguns reviews sugestivos a Wilmer: "The Godfather", "Vanilla Sky", "Eyes Wide Shut", "Indecent Proposal" e "A Clockwork Orange".

 

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