Taxi Driver (1976)
escrito por Wilmer da Silva, um enfant terrible que pretende chocar as bases institucionais do cinema português e cuja opinião é procurada por variadíssimas publicações sobre a matéria.
Publicado em 09-11-2009 | 4 comentários
“The whole conviction of my life now
rests upon the belief that loneliness,
far from being a rare and curious
phenomenon, is the central and
inevitable fact of human existence.”
– Thomas Wolfe
“God's Lonely Man”
Taxi Driver: o génio do triângulo Schrader/Scorsese/De Niro
Dois tiroteios mediáticos ocorreram esta semana. Homens alienados que colapsam e explodem em raiva. Sem nada a perder decidem afirmar-se com um frenesim homicida e suicida. Estas tragédias inexplicáveis repetem-se vezes sem conta, um pouco por todo o mundo. Tragicamente, Taxi Driver é uma obra de arte condenada a nunca passar de moda. Um dos melhores filmes da história do cinema. É daqueles filmes sem paralelo, que é sempre bom revisitar. Pelo tema que trata continua a ser actual, pelo seu estilo e beleza estética continua a ser uma lufada de ar fresco no panorama de narrativas que vemos.
Este filme é o resultado do óptimo entendimento estabelecido entre Paul Schrader (o argumentista), Martin Scorsese e Robert de Niro. Schrader, com a escrita deste argumento, expressou e exorcisou o estado de espírito em que se encontrava. Foi buscar inspiração à sua solidão e escreveu o argumento num par de dias. O resultado foi a história de Travis, um fuzileiro retornado do Vietname. Um jovem solitário cheio de contradições que anseia por contacto humano ao mesmo tempo que sofre uma solidão auto-infligida, pois não se revê na sociedade que acha corrompida. Ele fala e pensa com superioridade moral ao mesmo tempo que vê pornografia.
Scorsese, mais de que contar uma história, expressou o estado de espírito do protagonista com imagens. O trabalho de câmara é invulgar, apesar disso é subtil o suficiente para não distrair o espectador, fazendo transições muito interessantes entre o ponto de vista do protagonista e um ponto de vista mais descritivo do ambiente em volta do protagonista. Para um filme que se passa maioritariamente à noite nas ruas mais degradadas de Nova Iorque a paleta de cores é bastante diversa. Cria-se assim uma atmosfera sexual e intimista. Outra nota de destaque para a realização é o trabalho retroactivo desenvolvido com os actores. Se para Hitchcock os actores deveriam ser tratados como gado, bem pelo contrário, Scorsese trabalha lado a lado com os seus actores ouvindo as suas ideias e dando espaço para o improviso. Harvey Keitel, que interpreta no filme um chulo, transfigurou completamente a sua personagem. A personagem, que inicialmente tinha apenas cinco linhas de diálogo, passou a ter a sua própria cena, completamente desenvolvida pelo próprio Keitel.
Sem Robert De Niro, não existiria Taxi Driver, pelo menos não como o conhecemos. Isto porque os produtores inicialmente negaram a realização deste argumento a Martin Scorsese alegando a inexperiência deste. Os produtores só deram luz verde a Scorsese após De Niro ter ganho o seu primeiro Óscar (com Godfather: Part II). Aceitaram-no na condição dele convencer De Niro a interpretar Travis Bickle. Felizmente a dupla Scorsese/De Niro foi uma receita que se repetiu várias vezes, sempre com bons resultados.
Robert De Niro, em qualquer produção que participa (exceptuando as comédias escatológicas em que recentemente entra), eleva o grau de excelência dos actores. Em Taxi Driver ensaiava insistentemente com os seus colegas, só ficando satisfeito quando considerava que os colegas encarnavam os seus personagens ao ponto de estarem suficientemente “soltos” para improvisarem. Isto porque De Niro trabalha com o “método”, técnica interpretativa desenvolvida no Actors Studio e inspirada no dramaturgo Stanislavski. Esta técnica trabalha na construção interior dos personagens (pensamentos, memórias) para conseguir uma melhor exteriorização. Este método envolve um grande envolvimento físico e psícológico com o meio que envolve o personagem. Na preparação para este filme De Niro trabalhou como taxista por uns dias, frequentando os sítios onde os taxistas nocturnos comiam. Locais ideais para estudar os comportamentos e os diálogos destes profissionais.
A banda sonora composta por Bernard Herrmann é uma das minhas favoritas. Ajuda a construir a atmosfera do filme e a entrar na psicose de Travis, a sentir o mundo como ele o sente, e a identificar-nos com o seu drama urbano e contemporâneo. O compositor não chegou a ver o seu trabalho integrado no filme, porque morreu antes do filme ser montado. O filme é dedicado à sua memória.
O final de Taxi Driver é bastante interessante e elaborado. Numa camada superficial aparenta ter um happy ending melancólico. Mas debaixo dessa aparência, Travis Bickle é um zé-ninguém transformado pelos meios de comunicação num herói acidental, e que no fundo continua o mesmo psicótico à beira de um colapso mental - uma bomba em suspenso que continua em busca de um sentido para a sua vida, mas que contraditoriamente faz de tudo para não alcançar o seu objectivo.
Taxi Driver
1976
Filme de Martin Scorsese
Classificação final: 20/20
José António Batarda Fernandes escreveu, a 13-12-2009:
Li a crítica sobre o "Taxi Driver",a qual é omissa no que respeita ao coNfronto entre normalidade/ marginalidade (aborda-o superficialmente na ida ao cinema porno) . Quanto ao pseudo "happy-end" , julgo as formulações correctas. A joddie Foster já era conhecida no meio do cinema pela sua participação em "Bugsy Malone" (filme interpretado por crianças), no qual assina (eróticamente fabuloso) o papel de uma artista de "cabaret" dos anos 30, que dá pelo soberbo nome de Talullah.
Wilmer da Silva escreveu, a 15-11-2009:
Um sincero obrigado a todos os comentários. São sempre bem-vindos.
Paulo, enquanto escrevia esta análise considerei a questão de mencionar ou não o talento de Jodie Foster. Optei por excluí-la. Pretendi que o artigo foca-se exclusivamente os agentes criativos que contruibuíram num resultado directo na narrativa de "Taxi Driver". A representação de Foster foi de facto reveladora de uma promessa de grande talento. Apesar disso, era nova demais para interagir com Scorsese ao ponto de fazer sugestões criativas importantes.
Mas Paulo, ainda bem que a mencionou. A homenagem à actriz ficou feita graças ao seu comentário.
Relembro: www.twitter.com/billyhagakure
--- para opiniões curtas sobre filmes, séries, etcetera ---
Paulo Costa escreveu, a 11-11-2009:
Estou curioso: o ilustre e respeitável crítico não tem uma palavra sobre Jodie Foster como Iris. Porquê? O personagem é central e a Jodie tem um desempenho extraordinário, que lhe valeu dois BAFTAs e a nomeação para um óscar. Com todo o respeito pela óbvia importância do personagem principal e qualidade do actor que o representa, De Niro, ninguém foi tão premiado por este filme como Jodie Foster. Que tinha 13 anos quando o fez, recorde-se, e aceitou este papel que várias outras actrizes recusaram, por terem medo da sua intensidade e carácter polémico. Muito mais tarde Jodie seria Clarice Sterling no memorável Silêncio dos Inocentes e Cheryl Araújo em Os Acusados, a história da jovem portuguesa vítima de gang raping num bar de New Bedford, perpretado por membros da comunidade de imigrantes portugueses. Aqui lhe deixo a minha modesta homenagem, com licença do talentoso crítico.
Barbaspermanganato escreveu, a 09-11-2009:
boa crítica. este é claramente um dos melhores filmes de sempre, e sem disputa, o meu favorito.
é uma visão bem clara sobre a espiral descendente de um homem para a degradção completa. neste filme nós não vemos o mundo tal como ele é, mas antes pelos olhos do psicótico Travis Bickle, que apenas vê no mundo "a escumalha" e "os clones sem personalidade"
o ritmo do filme é simplesmente perfeito. começa lento, focando-se sobre o quotidiano de Travis. apesar de já demonstar bastante rancor, ele ainda enceta algumas tentativas atabalhoadas de se inserir. ainda existe nele alguma esperança de conseguir encontrar para si um lugar no mundo.
à medida que a sua inadaptação se torna evidente e o impede de o fazer, a sua angustia cresce e o o ritmo do filme vai acelerando gradualmente, a par com a sua irrequietação.
Forças pesadas impelem-no a agir contra o mal que vê no mundo. mas na verdade ele não sabe para onde apontar a sua arma. já não consegue destinguir o mal do bem. ele procura acima de tudo dar um grito de revolta contra a indiferença a que está sujeito. agora o ritmo do filme é acelerado, tal como é a confusão na sua mente. tenta matar um politico inócuo. falha. finalmente explode quando vê em Iris a sua mais nobre cruzada.
alguns momentos memoraveis:
para seduzir Betsy, leva-a a um cinema pornográfico, sem compreender que tal é inapropriado.
o cameo de scorsese como individuo psicopata que pretende matar a mulher e a quem travis levou ao destino. a sua indiferença diz tudo.
o momento em que travis compra o revolver. ao experimenta-lo aponta-o pela janela a uma mãe com um carro de bébé.

