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A lenda de Bobby Jones

Diogo Costaescrito por Diogo Costa, aspirante a jornalista desportivo de topo mas que se recusa a trabalhar, por exemplo, no "Record".

Publicado em 25-10-2009 | 4 comentários

 

 

 

Bobby Jones GolfeHá pouco mais de 100 anos, mais precisamente no dia 17 de Março de 1902, na cidade norte-americana de Atlanta, Geórgia, nasceu Robert Tyre Jones, Jr. - nome pouco utilizado, pois este homem de quem hoje vos falo ficou eternamente conhecido por Bobby Jones. São conhecidos os seus feitos no panorama do golfe, mesmo apesar de apenas ter jogado competitivamente até aos 28 anos. Para descobrirmos o porquê de se chamar "lenda" a este jogador de tão curta carreira de competição, vamos conhecer o seu percurso, tanto na vida como no desporto.

Jones pegou pela primeira vez num taco de golfe por volta dos seus 5 anos, e cedo apanhou o jeito. Aos 6 anos, venceu o seu primeiro torneio, disputado entre 4 crianças. Aos 9, venceu um torneio de júniores, tendo como principal adversário um jovem de 16 anos, mostrando desde logo ser uma grande promessa. Um dado curioso é o facto de o jovem Bobby nunca ter tido lições formais de golfe: desenvolveu o seu jogo através de ensinamentos da sua família e da observação do estilo de alguns profissionais.

Naquela época ainda não existiam tantos profissionais de golfe como acontece hoje, e muitos dos grandes nomes, Bobby Jones incluído, nunca chegaram a jogar como profissionais. Devido a esta existência de jogadores amadores de grande qualidade, os quatro mais prestigiados torneios anuais de golfe eram os "Open" dos Estados Unidos e Grã-Bretanha e os "Amateur" dos mesmos territórios. Jones estreou-se no US Amateur de 1916 com apenas 14 anos, sendo o mais jovem jogador de sempre a participar num torneio dessa importância.

Daí em diante, foi uma questão de tempo até Bobby Jones consolidar o seu estatuto de jogador de topo. Mas o caminho não foi fácil. Talvez devido ao sucesso atingido numa tenra idade, ou talvez apenas por força do seu carácter competitivo e perfeccionista, Bobby acabava geralmente por deitar tudo a perder nos torneios que disputava, fruto da dificuldade que tinha em gerir a pressão. Os nervos afectavam-no de tal forma que chegou a perder 6kg no decorrer de uma competição. Diz-se que em 1921, após a desistência no British Amateur desse ano, Jones confidenciou a um amigo "não sei se algum dia irei conseguir vencer um torneio", ao que este respondeu: "Bobby, assim que meteres na cabeça que ao entrares numa competição és o melhor golfer em campo, vais vencer essa competição e muitas outras".

Foi só em 1923 que esse dia chegou. Bobby Jones sagrou-se campeão do US Open desse ano, e até 1930, altura em que se retirou, não existiu um ano em que não vencesse pelo menos um dos quatro principais campeonatos.

Bobby Jones JogarApesar do seu espírito competitivo, Jones não era, de todo, um desportista batoteiro, procurando a vitória por todos os meios possíveis. Ele dava grande importância ao fair-play e à verdade desportiva, e a história que passo a contar ilustra bem essa faceta deste lendário golfer. Decorria o US Open de 1925, e Bobby preparava-se para dar uma tacada, a meio de um buraco. Acidentalmente, o seu taco deu um ligeiro toque na bola, situação que dá direito a uma penalização de duas pancadas ao jogador infractor. Nenhum dos juízes se apercebeu desta falta, mas Bobby Jones fez questão de se dirigir a eles explicando o sucedido. Após averiguação do caso, os tais juízes disseram ao jogador que, na impossibilidade de verificar a existência da dita infracção (nenhum outro jogador ou espectador pôde confirmar, pois ninguém se tinha apercebido), caberia ao próprio a decisão de ser ou não ser penalizado. Muitos jogadores escolheriam passar impunes, para assim ficarem mais perto de uma boa classificação, e eu não posso dizer com segurança que faria o contrário, mas não foi essa a escolha que Jones fez. Ele aceitou as duas pancadas de penalização e, no fim, ingloriamente, ficou em segundo lugar no torneio - a apenas uma pancada do primeiro classificado!

Quando um membro da imprensa elogiou Bobby pela sua honestidade, este disse apenas que isso era "o mesmo que elogiar um homem que escolheu não roubar um banco".

O ano em que, para muitos, Bobby Jones ficou para sempre gravado como o maior golfista de todos os tempos, foi 1930. Jones logrou vencer o US Open, o US Amateur, o British Open e o British Amateur - precisamente os quatro torneios major anuais. Este feito foi mais tarde apelidado de "o grand slam" do golfe. Até aos dias de hoje, depois de já se terem passado quase 80 anos, nenhum outro jogador conseguiu igualar tamanha proeza. E, para surpresa e choque dos seus fans e de quase todo o mundo, nesse mesmo ano Bobby deixou de vez o golfe competitivo. Teria ele conseguido quebrar ainda mais recordes se tivesse continuado? Ou terá sido este o momento perfeito para abandonar, sabendo que a partir dali nunca poderia superar-se a si mesmo? São perguntas às quais nunca vamos poder responder com exactidão, mas Bobby Jones permanece, até aos dias que correm, uma fonte de inspiração para todos os que desejam triunfar neste interessante desporto que é o golfe.

Bobby Jones TacoApós a sua retirada, Jones continuou ligado ao golfe através da co-produção de livros e vídeos educacionais sobre a matéria. Trabalhou com a Spalding para a elaboração de novos tipos de tacos e contribuiu ainda para o design de novos campos. A sua principal actividade, após ter terminado a carreira de jogador, foi exercer direito em Atlanta, a sua terra natal.

Bobby Jones conheceu anos difíceis no fim da sua vida. em 1948, foi-lhe diagnosticada uma doença chamada siringomielia, que causa a abertura de cavidades na espinha dorsal e provoca dores e uma perda progressiva da capacidade motora. Durante quase 23 anos, Jones foi piorando, passando a utilizar uma bengala, depois talas nas pernas e, finalmente, ficou restringido a uma cadeira de rodas. E é a 18 de Dezembro de 1971 que termina, com a sua morte, a história de um dos mais importantes desportistas que o mundo já conheceu.

Sobre a sua debilitante doença, Jones uma vez comentou "we play the ball where it lies" (em português "temos que bater a bola de onde quer que ela esteja"), o que significa que, na vida, todos temos o dever de fazer o melhor possível com as oportunidades de que dispomos.

Eu não poderia estar mais de acordo com este grande campeão.

 

Bobby Jones Vida

 

 

Comentários

 

Paulo Costa escreveu, a 26-10-2009:

Muito bem narrada a história deste homem sobredotado que gravou o seu nome na muito restrita galeria dos genuinamente grandes. A ele se deve também a criação do torneio dos Masters, hoje um dos 4 majors, disputado todos os anos no campo que ele próprio desenhou em Augusta, Georgia, o seu estado natal. E em cujo clube ainda hoje as mulheres não podem ser sócias. De ele se diz que fez o que fez na sua vida para contentar as pessoas de quem ele gostava, mais do que para perseguir uma realização pessoal. Adoptou o golfe por causa do pai, um entusiasta do jogo, licenciou-se em  engenharia e direito porque a mãe valorizava a educação acima de tudo e deixou prematuramente o golfe competitivo, depois de ganhar o Grand Slam, para corresponder ao desejo da mulher, que temia pela saúde dele. Há que bater a bola onde ela está, claro, mas com cuidado para não atingir ninguém.  Ser capaz de o fazer foi a marca do seu génio.

 

Bob Totmauß A.K.A. Mr.Eule escreveu, a 27-10-2009:

Es zufriedst mich eine Beispiel wie einer Mann so Starke ist auf ihrer Weg...

Good Job.

.Totmauß

 

Inês Costa escreveu, a 01-11-2009:

É uma história maravilhosa. que nos dá a conhecer a vida de um homem fantástico, um exemplo de coragem, de força, de vontade e de carácter! Gostaria que muitos jovens, muitos e muitos, conhecessem esta história, pois isso ajudá-los-ia de certeza a pensarem em tentar construir um mundo melhor.

É uma bela história de vida. Parabéns, é um bom trabalho!

 

Miklos escreveu, a 1-12-2009:

Um grande artigo e uma ENORME história de vida!

Sem dúvida, inspirador. :)

Cumprimentos,
Miklos

 

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