Escutem com atenção
escrito por Daniel "o Viking de Bergen" Matos, ilustre especialista em questões de política e de literatura.
Publicado em 2 de Fevereiro de 2010 | 1 comentário
Uma das coisas que mais gosto no futebol é o facto de o assunto nunca se esgotar. Quando achamos que aquela grande penalidade não tem discussão possível ou que o amarelo foi bem mostrado, quando não há Liga dos Campeões ou Taça de Portugal para nos entreter durante a semana, tumba!, surge um escândalo sobre dirigismos ou túneis da Luz para nos alimentar durante a abstinência.
Os motivos podem ser vários. Os intervenientes, esses, costumam repetir-se com frequência. Recentemente, um jovem ugandês que se interessa sobremaneira pelo futebol em Portugal abriu uma conta no YouTube onde colocou um punhado de gravações áudio de escutas feitas a alguns intervenientes do velhinho caso do Apito Dourado. Entre as distintas figuras que desfilaram nos trechos publicados encontram-se o campeão de suspeitas de crime de corrupção desportiva Pinto da Costa, eterno presidente do Futebol Clube do Porto, e Valentim Loureiro, que já foi presidente de tudo, mas que no caso é assumido como Presidente da Liga.
Entre muitos outros assuntos debatidos, e para deleite de todos os ouvintes, as escutas revelam algumas preocupações prementes dos visados num estilo bem-humorado e descontraído. É, então, possível escutar Pinto da Costa a combinar uma falsa notícia com o jornalista Tavares-Teles com o intuito de pressionar a Comissão Disciplinar a não castigar Deco, é possível escutar Pinto da Costa a pedir um sumaríssimo para Liedson ao amigo Valentim Loureiro – que acede ao pedido -, e ainda o escutamos a ser desafiado para dar o seu aval sobre a escolha de este ou aquele árbitro para este ou aquele jogo, ou a recebê-los na sua própria casa em vésperas de desafios importantes.
Sim senhor, nestas escutas é possível escutar muita coisa. No entanto, tudo o que se escuta na opinião pública não é sobre o conteúdo das escutas mas sim sobre a ilegalidade e até sobre a veracidade das mesmas. Entendo que não se deve atribuir a tripulha, o autor da brincadeira, o epíteto de salvador da verdade desportiva, pois infringiu a lei ao violar o segredo de justiça, mas o seu teor é tão flagrante que não concebo como pode ser ignorado e não ser discutido e usado como prova. Principalmente por se saber que as conversas lá expostas já foram apresentadas em tribunal e são conhecidas de todos os que lá compareceram, jornalistas ou não. Sendo um caso público, qualquer um que o consulte terá acesso às conversas, daí sentir alguma estranheza quanto a esta coisa do segredo de justiça.
Não percebo como é que a credibilidade do presidente do Futebol Clube do Porto continua inviolável e como continua o homem a ter espaço de manobra no futebol português. E como continua a dizer à boca cheia que foi absolvido de todas as acusações a ele dirigidas e que o que era giro era se tentassem um apito encarnado. Será que os títulos ganhos então pelo Porto, independentemente do valor das suas equipas – e da tosquice dos seus adversários na época –, não deve ser questionado? Ao lançar esta dúvida não tento que os títulos em questão sejam atribuídos às equipas que vinham atrás na tabela, porque também não considero justo esse p
rivilégio imerecido. Mas será que, ao deixarmos passar situações destas, não estaremos a transmitir uma sensação de impunidade aos infractores, que não se vêem punidos pelos seus delitos? O crime, quando não sancionado, compensa sempre.
É por isto que eu gosto de futebol. Sem referir os acasos de um jogo sequer, consegui escrever um artigo inteiro.
E se quiser escutar com o seu próprio ouvido, tem aqui material para começar:
Pinto da Costa combinando árbitros para o próximo
jogo do seu Porto
Pinto da Costa falando sobre uma notícia falsa
que elaborou
sobre Deco
Jorge Nuno
pede a Valentim
Loureiro,
presidente
da Liga, um castigo para Liedson
Combinação de um encontro em casa de Pinto
onde são
explicadas as direcções ao árbitro Augusto Duarte
Miklos escreveu, a 3 de Fevereiro de 2010:
Só uma correcção, Dani...
Pinto da Costa e Porto não foram absolvidos!
Essa é uma das próximas "mentiras que repetidas muitas vezes, se tornam verdade" do futebol português...
Apesar de Pinto da Costa bradar aos céus a sua absolvição, tanto ele como o Porto foram condenados por tentativa não consumada de corrupção... E não recorreram da sentença!
Ou seja, Pinto da Costa e Porto assumiram-se como corruptos!!
Mas como a tentativa não foi consumada - juízo mais que estranho, pelo conteúdo dessas escutas -, daí não terem descido de divisão, como Boavista ou Leiria, tendo perdido uns meros 6 pontos no campeonato passado (uma vez mais, algo bastante conveniente, dada a longa vantagem com que terminaram em relação ao 2º classificado, Sporting).


