O Novo Acordo Ortográfico
escrito por Daniel "o Viking de Bergen" Matos, ilustre especialista em questões de política e de literatura.
Publicado em 07-10-2009 | 10 comentários
Achei ótima a temperatura do dia de ontem, apesar de um pouco úmida. Era dia de ato eleitoral e lá fui eu, de carro, preencher o meu papelinho. Virei à esquerda, depois à direita, depois à esquerda outra vez, que a tarde assim o pedia, até chegar a uma interceção na estrada, onde estacionei. Votar, dizem, é um dever de todos nós, e aquela ação fez-me sentir cumpridor dos meus. E com esforço redobrado, pois hão de tentar conduzir um carro com uma infeção na perna! Se não melhorar depressa terei de cancelar o meu voo para o Egito.
Pois é, caros leitores, não faz muito sentido, pois não? Para quê tirar o hífen ao “hão-de”, o P ao coitado do Egipto, que já é pobre por si, ou até mesmo o trema à lingüiça brasileira? Não quero deixar de escrever “lêem”, passar a escrever “veem” ou “antirreligioso”.
A língua é um arquivo, e a pluralidade de ortografias em vez de criar complicações, como muitos gritam por aí, vem apenas torná-la mais rica.
A nossa ligação com países como o Brasil, Angola ou Cabo Verde é muito forte, ligam-nos a História e, claro, a Língua. Não obstante, no nosso crescimento e na construção da identidade de cada país, a vivência e os costumes atiraram-nos em direcções (ou direções?) opostas, levando-nos a usar expressões diferentes, nascidas de formas de estar, de contacto com climas tão diferentes como o tropical ou o nosso, mais fresquinho.
Ao que sei vivemos uma fase de adaptação, em que o acordo é aconselhável mas não obrigatório (pergunto-me em diversas situações da minha vida o que quererá isto dizer), e só apenas daqui a uns anos se tornará oficialmente oficial. No entanto, muitos não gostam de perder tempo, e edições diárias como o jornal Record ou o Correio da Manhã (este último ainda parcialmente) já anunciam orgulhosamente e de peito cheio a aplicação do ajuste internacional.
Nestes termos, apelo ao bom senso e espírito contestatário que sei que existe em cada um de vós e proponho um boicote literário em grande escala às publicações aderentes, como forma de pressão para a mudança e, no caso do Correio da Manhã, para que deixe de ter leitores, de todo, já que é horrível.
Este acordo veio abrasileirar o português, torná-lo uniforme, é certo, mas deslocado de realidades e culturas como a portuguesa ou dos longínquos timorenses, que vão ter de o aprender no matter what.
O objectivo de tanto tormento é, dizem, a promoção da leitura e da circulação de livros entre os países mas o que se vê, de facto, é uma imposição linguística do país mais forte – o Brasil – aos restantes mais fracos.
Assim, termino com este pensamento, que pertence a Vasco Graça Moura mas que podia ser meu: "Alguém imagina os Estados Unidos a ditarem à Inglaterra as regras ortográficas da língua inglesa? Ou o Canadá a ditar as do francês à França ou a Venezuela as do espanhol a Espanha?"
Se hoje em dia vemos tanta gente em tropeços e encontrões na língua que aprende desde que nasceu, custa-me vaticinar um futuro feliz para esta coisa a que chamam o novo Acordo Ortográfico.
daniboy escreveu, a 1 de Fevereiro de 2010:
Didicas: a minha posição é bem clara. Esse dito Acordo é totalmente incoveniente, não havendo qualquer ponto positivo nele senão o de favorecer às empresas privadas, no caso, as editoras, que vão enxer os bolsos de dinheiro, dada a suposta uniformização da língua e, assim, ampliando o seu mercado consumidor.
No entanto, tão impertinente quanto o próprio Acordo em si é afirmar que tudo isso se deve a uma imposição do Brasil-ex-colônia, que simplesmente não foi tão desfavorecido quanto Portugal.
É apenas o senso político dos portugueses que me faz confusão, pois estes preferem pôr a culpa em países teoricamente favorecidos pelo Acordo do que assumir a precariedade da sua política externa, que mostrou-se aquém de garantir a satisfação do interesse público, dever primordial do Estado, nomeadamente quanto à manutenção das expressões objeto do acordo em sua sintaxe original. Custava aos políticos portugueses fazerem um referendo antes de aderirem a um acordo dessa ordem? Acho que Eduardo MTA foi o que captou melhor a problemática do assunto nesta discussão. Vou colar aqui, com a devida vênia, parte do comentário dele:
"E referendar esta merda? Está quieto raimundo, não te metas em confusões! Conseguimos que venha para cá mais dinheiro e tudo do Brasil, dos Angola! Eles que comprem Portugal às mijinhas. Também vêm Mais imigrantes e tudo! Até podem ter mais direitos que a nossa polícia! Cultura? para quê? ahahah isso é para tótós do século passado!" - essas palavras refletem (e agora é refletem =P) todo o desdém político que acredito terem sido alvo os portugueses!
Didicas escreveu, a 1 de Fevereiro de 2010:
Devo discordar da posição assumida aqui por daniboy, onde este declara que a aversão dos portugueses ao Novo Acordo é apenas mais uma manifestação do carácter queixinhas do típico cidadão lusitano. Concordo que somos um povo um pouco maricas nesse aspecto, mas, e falo por mim, não me parece que as críticas ao Acordo sejam feitas na base do "para quê mudar?".
Eu critico o Acordo porque vem criar situações ilógicas, como por exemplo retirar o "c" na palavra "facto" ou o "p" em "Egipto", quando são ambas letras que pronunciamos ao falar. Não me faz confusão nenhuma aproximar a minha língua do português do Brasil. Aliás, aplaudo a retirada, por exemplo, do "p" em "óptimo" ou do "c" em "actual". São letras inúteis.
Outra coisa que me parece triste é aquilo que foi sugerido por Jorge Pinheiro, ou seja, que não haja da parte das forças políticas a MÍNIMA preocupação em ensinsar as pessoas a escrever correctamente (90% das pessoas que conheço dão erros com frequência) e no entanto haja tempo e dinheiro para andar a aderir a acordos da treta.
Finalmente, devo dizer, daniboy, que a escolha do Euro como comparação é particularmente infeliz, porque a maior parte das pessoas que conheço reagiu bem à adesão à moeda única europeia. Eu, por exemplo, já não consigo pensar em "contos" e inclusivamente chateio-me se vejo alguém a tentar "traduzir" os actuais valores para a moeda antiga.
Tendo dito tudo isto, devo concordar que somos de facto uns queixinhas da merda.
daniboy escreveu, a 28 de Janeiro de 2010:
Como já disse em prévio comentário, que fique bem claro que não sou adepto desse novo acordo ortográfico, objeto de inúmeras reclamações.
Apesar do texto exprimir com fidelidade, acredito eu, o rechaço manifestado pelos portugueses, discordo de vários aspectos elencados por Samús.
Como em alguns dos seus artigos, o referido texto encerra discretos juízos de valor do ponto de vista ético-moral, dos quais creio serem pouco relevantes em relação à questão do Acordo Ortográfico, diante do mundo globalizado em que vivemos atualmente.
É notória a sensibilização de Samús quanto ao abalo da Soberania portuguesa, devido à invasão de expressões de cunho brasileiro importadas pelo Acordo, todas elas, em geral, censuradas pelo povo português.
Ora, em primeiro lugar, o Acordo foi, como o próprio nome indica, um acordo e não "uma imposição linguística do país mais forte – o Brasil – aos restantes mais fracos.". Assim, se o acordo não favoreceu a Portugal, a culpa deve-se aos representantes políticos desse país, que não souberam negociar, nem tampouco defender os interesses políticos do seu povo.
Em segundo plano, temos que um dos vários efeitos da globalização é o da gradual perda da soberania em favor de uma maior liberdade dos atores internacionais, nomeadamente as grandes empresas, então algo como o Acordo Ortográfico dos Países Lusófonos condiz perfeitamente com a nossa realidade econômica e, posso até dizer que era de se esperar!
Os portugueses têm o hábito de ficarem ressentidos com esse tipo de mudanças. Quando a moeda mudou para o Euro também foi levantada uma onda de conservadorismo, só porque iam acabar com o Escudo. Parecia que o Escudo era a Libra esterlina.O que não entendo é o seguinte: como pode o português criticar tanto esses movimentos de globalização, quando na verdade foi e é um dos países europeus mais favorecidos por essa mesma globalização??? Logo após a ditadura militar, quando Portugal estava entregue às mazelas do Salazarismo, ninguém cogitava o não-ingresso de portugal à União Européia, nem sequer discutiam o problema de serem bombardeados com a carga cultural advinda de outros países europeus ou muito menos com o problema da emigração.
Hoje, o Portugal que cresceu às custas da União Europeia e da tão famigerada globalização, vem grasnar com os outros países quando os frutos de tal instituto, que, diga-se de passagem, é a sua única alternativa, dada a escassez de riquezas desse país, não lhe convém.
Chega também a ser incoerente acusar o Brasil, ex-colônia portuguesa, por séculos explorado para servir aos caprichos da Metrópole, de promover uma impusição linguística sobre Portugal, país este que nos atribuiu língua, leis e costumes.
Tenhamos bom senso!
Jorge Pinheiro escreveu, a 26 de Janeiro de 2010:
É o que sucede quando os políticos se aventuram no campo da cultura. O que os presidiu (como sempre, aliás) nesta infeliz decisão foi o interesse das suas clientelas. E a prática diz que sempre que os políticos invadem terrenos culturais só produzem estragos. Em vez de uniformizar, este (des)acordo vem, na prática, criar 4 novas normas de escrever o nosso idioma: as duas actuais (portuguesa e brasileira), a nova norma (os que jogam no politicamente correcto) e a norma dos que escreverão ao deus-dará. Teria sido mais útil preocuparem-se com a uniformização da terminologia e com a correcção da escrita.
DaCosta Matos escreveu, a 27-11-2009:
Porreiro pá!!!
Andei anos na escola a aprender a escrever sem erros ortográficos. Agora que aprendi vem o acordo ortográfico lixar isto tudo.
;)
Joana escreveu, a 01-11-2009:
Quanto ali à parte do Correio da Manhã, ainda estou a tentar perceber que aglomerado de folhas cheias de letras é aquele, a que chamam "Correio da Manhã". É que já estou farta de dar voltas à cabeça e não percebo o que é. Jornal não é de certeza... Não percebo o que lá escrevem, porque, com toda a certeza, notícias também não são.
Joana escreveu, a 01-11-2009:
Concordo com tudo o que foi dito. O novo acordo ortográfico era completamente desnecessário. E, mais uma vez, deixámo-nos ser "possuídos" pelos "grandes"... É uma vergonha. E uma tristeza para mim, estudante de Português; para mim, cidadã; para mim, portuguesa.
Eduardo MTA escreveu, a 01-11-2009:
Antes de mais gostava de mandar os nossos políticos para um sitio. Mas pretendo ser politicamente correcto, por isso não o vou fazer!
E referendar esta merda? Está quieto raimundo, não te metas em confusões! Conseguimos que venha para cá mais dinheiro e tudo do Brasil, dos Angola! Eles que comprem Portugal às mijinhas. Também vêm Mais imigrantes e tudo! Até podem ter mais direitos que a nossa polícia! Cultura? para quê? ahahah isso é para tótós do século passado!
Acabando o meu monólogo, quero dizer que sou totalmente a favor de boicotar a imprensa que adopta o acordo, eu nasci em Portugal, tenho identidade, e não é por causa de um mero interesse de aproximação económico-financeira (porque se alguém pensa que isto é uma aproximação cultural, abra os olhos!!) que vou abdicar da minha identidade!
NUNCA os EUA proporiam tal coisa ao Reino Unido. É Humilhante e não umilhante, ver um povo como o nosso, quase tão velho como o do Reino Unido abdicar de identidade assim! O português é fraco e todos fazem o que quer dele! Orgulho-me da minha pátria, envergonho-me da nossa sociedade!
Abraço Matosinhos, Gostei muito do ensaio! ;)
Miklos escreveu, a 28-10-2009:
Não retiraria um único hífen ou dupla consoante ao que escreveste, Dani! ;)
Bob Totmauß A.K.A. Mr.Eule escreveu, a 27-10-2009:
Concordo com os colegas. Ora a língua de cada um tem o seu trato específico, uma mudança ortográfica não expurgaria de cada fronteira da língua as diferenças existentes nas peculiaridades etimológicas de regras etimológicas de certas palavras o que seria muito mais interessante - e também assassinato da cultura - para uma unificação de códigos lingüísticos.
No final, uma mudança irrelevante em termos de interpretação, vez que o que mudará não são o sentido das palavras mas suas regras de construção. "rabo da bicha" sempre será "rabo da bicha" em portugal ou no brasil, com seus sentidos diversos. Um hífen retirado do beija-flor/colibri não contribui em nada para a unificação das línguas... Todos sabem quem é o dito cujo e não deixaram de saber ou saberão mais porque retiraram caparam o colibri.
Não importa sua semelhança, as mutações culturais "linguísticas" são inevitáveis.
Nunca deixarão de haver fronteiras.
Dan Bral (Mako) escreveu, a 07-10-2009:
Apesar de ser (também) brasileiro, não concordei com as alterações ortográficas advindas do acordo entre os países lusófonos, apesar de poder ser considerado um "beneficiado".
Ora, a língua é um produto cultural. É a identidade de um povo. Assim, não pode ser homogenizada apenas no intuito de que seja mais facilmente compreendida.
Por outro lado, existe o aspecto da evolução da língua, que também deve ser observado. A língua é mutável, no entanto, essas mudanças devem ser provenientes da própria conveniência social, ao contrário do que ocorreu no caso em comento, em que a mudança deu-se em função de finalidades meramente políticas.
Por último, parabéns Samús, pela excelente fundamentação.
abraço,
Mako.


