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Caim - José Saramago vs Igreja Católica

Daniel Matos

escrito por Daniel "o Viking de Bergen" Matos, ilustre especialista em questões de política e de literatura.

Publicado em 01-12-2009 | 2 comentários

 

 

 

Livro "Caim" de José SaramagoJosé Saramago lançou, há poucas semanas, o seu último livro Caim que gerou, mesmo antes de ser lido pelo público em geral, uma grande discussão em torno das afirmações que o autor faz na sua apresentação. Como parte da grande massa populacional que sou, junto-me a este debate confessando ainda não ter lido o livro e, por isso, tentando abraçar o debate cingindo-me às declarações já feitas pelas partes envolventes.

Caim é, ao que parece, o filho primogénito de Adão e Eva e tornou-se o primeiro homicida da História ao assassinar o seu irmão Abel num acto de ciúmes. Quantas vezes não me apeteceu fazer o mesmo a pessoas que conheço? Agora percebo de onde vem esta minha criminosa tentação.

Em diversas entrevistas concedidas, o Prémio Nobel da Literatura referiu-se várias vezes à Bíblia como sendo um “manual de maus costumes” cheio de “horrores, incestos, traições, violências, carnificinas” que devia ser mantido fora do alcance das crianças e onde a ideia dominante é a de um “deus cruel, invejoso, insuportável”.

Dados como estes são factuais, encontram-se descritos no interior do livro sagrado, e a única atenuante que se pode considerar é a interpretação simbólica que cada um pode tirar de tais descrições.

Daí não se compreender, na minha opinião – que, apesar de tudo, é apenas a minha opinião -, o ataque feroz lançado contra a opinião – que, apesar de tudo, é apenas a sua opinião – e contra a figura do escritor da obra.

Nas palavras dos estandartes da Conferência Episcopal Portuguesa, Saramago “mostra um grande desconhecimento da Bíblia” e a sua abordagem ao tema é “ingénua” e com laivos de operação de marketing. Afirmam ainda que a Saramago é permitido (por Deus, quem sabe?) “fazer as suas críticas, mas que entrar num género de ofensa não fica bem a ninguém”.

José Saramago NobelJá ao não menos ilustre eurodeputado do PSD, Mário David, saltou a tampa quando se mostrou envergonhado por ser seu compatriota e inquiriu o Nobel se considerava que, “a coberto da liberdade de expressão, se lhe aceitam todas as imbecilidades e impropérios”, rogando-lhe que abdique da nacionalidade portuguesa e finalizando com um último juízo: “se a outorga do Prémio Nobel o deslumbrou, não lhe confere a autoridade para vilipendiar povos e confissões religiosas, valores que certamente desconhece mas que definem as pessoas de bom carácter”.

Deste último interlocutor resta-me dizer que, para além de utilizar a palavra vilipendiar – vocábulo que me apraz -, me salta à vista uma comparação inevitável com um professor de ascendência nobiliárquica que tive na faculdade, António de Sousa Lara, que, na altura do lançamento do livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, também de Saramago, o considerou blasfemo e o vetou, na qualidade de Sub-Secretário de Estado adjunto da Cultura, de uma lista de romances portugueses candidatos a um prémio europeu.

 

Saramago volta, assim, à ribalta, suscitando discussões como há muito não se assistia por motivações literárias em Portugal. Da minha parte fica a promessa de que vou ler o tão badalado livro.

 

Comentários

 

Henrique escreveu, a 1-12-2009:

«Nas palavras dos estandartes da Conferência Episcopal Portuguesa, Saramago “mostra um grande desconhecimento da Bíblia”»

A mim parece-me que o conhecimento de Saramago da bíblia é maior do que o que eles pretendem que seja o do comum fiél, isso sim, parece-me.

 

daniboy escreveu, a 1-12-2009:

Assim como Matos, ainda não tive a oportunidade de ler "Caim", por isso não vou entrar em grandes detalhes neste comentário. Quando tiver lido a obra, prometo algo mais elaborado.

O novo romance de Saramago é, ao que parece, mais uma obra pra atiçar a Igreja e os católicos fervorosos, ao bom e velho estilo niilista. Contudo, pelas descrições que vi, não se trata de nada de inovador. É só mais um livro pra vender e vender. Nietzsche já fazia isso com maestria séculos atrás (só é lerem "O Anticristo" ou "Assim Falou Zaratustra"), quando não havia o marketing literário que existe hoje em dia. Sequer foi o primeiro português a fazê-lo. Mário de Oliveira também quis aparecer na mídia quando lançou "Fátima Nunca Mais", livro bastante recriminado pelos mais conservadores, por expor os milagres de Fátima como histórias de criancinhas.

Enfim, vou ler esse livro, mas já com um certo preconceito. Com certeza é mais um da coleção "O Código Da Vinci". Deviam lançar livros desses pelo menos só de 10 em 10 anos, pois já estão perdendo a graça...

Ótimo artigo de Samús, como sempre.

 

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