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Para onde vai a educação?

Diogo Costaescrito por Diogo Costa, aspirante a jornalista desportivo de topo mas que se recusa a trabalhar, por exemplo, no "Record".

Publicado em 17-12-2009 | 4 comentários

 

 

 

Parece que foi ontem que saí da escola primária. E no entanto já lá vai tanto tempo! Estou-me a ver também, anos mais tarde, a entrar na minha escola secundária, já um homem de 15 anos, pleno de certezas inabaláveis sobre a vida, ideias que hoje em dia considero dignas de pessoas atrasadas mentais.

Mas não é da minha experiência que quero falar aos leitores, nem tampouco utilizarei este belo espaço que é o Cachimbo da Paz para dissertar sobre a minha sanidade mental.

Hoje pretendo somente chamar a atenção para certos erros crassos que assolam o nosso sistema educativo e que todos os dias danificam irreversivelmente o futuro de milhares e milhares de crianças portuguesas e até de pequenos estrangeiros que, por um ou por outro motivo, vieram parar a este solarengo rectângulo no cantinho do Velho Continente.

A indisciplina

Quem não se lembra do caso de há bem pouco tempo em que uma professora era atacada por uma aluna por lhe ter tirado o telemóvel? "Dá-me o telemóvel já!", a aluna gritava. Deixo aqui um vídeo para vos avivar a memória:

Esta situação é um extremo, mas é frequente que haja alunos a faltar ostensivamente ao respeito aos seus professores. Por que é que isto acontece? É obviamente um problema que se foi enraizando. Cada vez se incute menos noção de disciplina nas "coitadinhas" das crianças. Não sei se acontece por um proteccionismo exagerado que parece ter virado moda, como se de copos de cristal os alunos se tratassem, ou se é pura e simplesmente por incompetência dos profissionais do ensino, que não conseguem fazer valer as regras mais básicas de civismo e de bom comportamento dentro do ambiente escolar.

Como é possível que uma aluna faça isto e escape com vida? Devia ser enforcada na praça pública como exemplo para os demais! Esta afirmação é obviamente metafórica: o que quero dizer é que, se este tipo de actos continua a acontecer, então só posso concluir que o castigo para quem os pratica é demasiado brando.

O facilitismo

A média das notas dos alunos portugueses no exame nacional de Matemática foi, em 2006, de 7,3 valores, numa escala de 0 a 20.

No mesmo exame, mas no ano de 2008, a média foi de, pasme-se, 12,5 valores! Ena pá, o pessoal andou a estudar a sério! ...ou então assistiu-se a um facilitar escandaloso do exame. Quando confrontada com uma acusação deste tipo, a então ministra da educação Maria de Lourdes Rodrigues teceu o seguinte comentário:

"É uma ilusão imaginar que é o Governo que determina a maior ou a menor facilidade dos exames."

O caso é pior do que eu pensava. Afinal o Governo nem sequer faz os exames! Quem terá, então, essa responsabilidade? Eu não sou. Nem conheço ninguém que o seja. Será Deus? Que me lembre, Ele deixou de trabalhar no sétimo dia.

Brincadeiras à parte, estimados leitores, acho que facilitar a vida aos alunos para que haja uma maior taxa de sucesso é uma mentira. Vai haver mais gente a chegar à faculdade sem uma preparação conveniente e, consequentemente, mais dificuldade por parte dos estabelecimentos de ensino superior em gerir o curto orçamento que o Estado determina para eles. Sabia que um aluno do ensino superior público custa ao estado, mais coisa menos coisa, 10 a 15 mil euros anuais? Não estamos a falar de trocos.

E o excesso de alunos a frequentar o ensino superior é apenas a ponta do icebergue no que respeita ao problema do facilitismo nas escolas portuguesas. Está-se, com este tipo de políticas, a promover uma certa preguiça, pois os alunos pensam "ah, os exames estão mais fáceis" e acabam por se esforçar menos. Está a ser criada toda uma cultura de pouco trabalho, e isto vai afectar negativamente, dentro de alguns anos, a produtividade das empresas onde estes pobres alunos vierem a trabalhar, quando o que queremos é precisamente o contrário: incutir nos nossos filhos uma cultura de exigência e de competência. Falo por mim, mas julgo não estar sozinho nesta minha afirmação!

A carga horária

Esta imagem é de um horário de uma turma de 6º ano, que está em vigor enquanto escrevo este artigo. Crianças que, na sua maioria, têm 11 ou 12 anos de idade.

Horário sexto ano

Não me parece razoável que uma criança dessa idade tenha que estar na escola todos os dias às 8 e meia da manhã para depois só de lá sair, na maioria das vezes, entre as 4 e as 5 da tarde. Não deveria a criança ter mais tempo para as suas actividades extra-curriculares? Então e estudar em casa? Não há tempo, quase!

E depois há o aspecto da duração de uma aula. Se para mim, adulto que sou, é complicado manter a atenção durante uma hora, imagine o leitor o quão árdua será a tarefa de ficar atento durante uma aula inteira de 90 minutos para uma criança de onze anos! 90 minutos que, muitas das vezes, demasiadas vezes, são ocupados integralmente com exposição teórica. Há poucos anos atrás, as aulas tinham, no máximo, 50 minutos. Parece-me ser um número razoável, mas eis que, prontamente, o Ministério da Educação decidiu agir, porque para implementar medidas auto-destrutivas eles estão sempre prontos.

Não quero estar a contradizer-me, porque há pouco falei sobre incutir uma cultura de exigência para agora afirmar que a carga horária é demasiado elevada, mas se é verdade que devemos esperar empenho por parte dos nossos alunos, não é menos verdade que temos que lhes oferecer condições para fazer um bom trabalho. Estou a falar da necessidade que um jovem tem de ter tempo livre. Ele está a construir o seu futuro e precisa de poder explorar a vida fora da escola e melhorar o seu desenvolvimento pessoal através, por exemplo, da prática de um desporto, em cujo caso terá que dispor de muito mais do que apenas uma tarde livre se quiser ter sucesso. Fico de boca aberta se algum aluno da turma que tem este horário vier a tornar-se um grande desportista! Sejamos francos, nunca terá a hipótese de praticar desporto de competição desde cedo. E, se o fizer, corre o risco de sofrer graves consequências a nível do seu aproveitamento escolar.

Estes três aspectos problemáticos que referi são apenas um exemplo de tudo o que está mal com o ensino no nosso país. Que se revejam os programas, que se façam ajustes sobre o que é e o que não é importante e, acima de tudo, que se faça a seguinte pergunta: o que teremos que fazer para garantir que a formação que desejaríamos ter tido seja dada às gerações vindouras?

Despeço-me com este apelo para que o trabalho do ministério da educação, dos professores e de todo o pessoal docente das escolas e universidades seja feito em prol dos interesses dos alunos. Pois o seu sucesso deve ser o objecto único do trabalho de todas estas pessoas.

 

Comentários

Inezokas escreveu, a 17-12-2009:

Faço minhas as palavras do Diogo!

 

Daniel Cabral escreveu, a 17-12-2009:

Realmente a situação é séria, principalmente a nível de ensino superior. Eis aqui a carga horária de um jovem de 22 anos, aluno de direito:

Segunda-feira:
7.15h - Introdução ao Dominó
09.00h - Teoria Geral do Poker
11.00h - Ping Pong avançado
---
14.00h - Aulas práticas (poker online)

 

Joana escreveu, a 19-12-2009:

Belíssimo artigo!

Pelo que tenho visto, a culpa das crianças estarem como estão não é toda dos professores, mas também dos paizinhos que as educam mal, pois baseiam-se no que ouvem no "Você na TV" e outros programas do género e esquecem-se de lhes incutir hábitos tão importantes como saber esperar para falar, respeitar opiniões ou saber calar-se quando assim tem de ser. Sem querer parecer uma avó a falar, uma palmada nunca fez mal nenhum. Se a criancinha faz uma birra em pleno centro comercial e os pais, para evitar vergonhas e porque o Dr. Fulano de Tal disse, no talkshow da manhã, que bater nas crianças provoca grandes traumas, correm para comprar um chocolate para a criancinha se calar, a criancinha em questão vai ser uma pessoa mimada, sem hábitos, com a certeza de que pode ter tudo o que tem. 

Situações como esta irritam-me solenemente e, infelizmente, assisto a muitas. Não digo que se esteja sempre a bater, nada disso, simplesmente penso que deve haver um equilíbrio entre a conversa e o ponto final na conversa (espero que me entendam).

Dei este exemplo pois são crianças que são educadas deste modo que, mais tarde, vão fazer cenas como a que está exposta no vídeo.

Quanto à carga horária, sim, acho excessiva. Aulas de 90m? Exagerado. Hora de entrada? Cedo. Hora de saída? Tarde. Tenho em casa uma "piquena" de 7 anos que todos os dias entra às 9h e sai as 16h30. Se vem cansada? Sim vem. Mas cabe a nós, educandos, fazer com que, quando a criança chega a casa, vá fazer os trabalhos de casa, antes de ir jogar computador ou ver desenhos animados.

O Governo tem de mudar muita coisa, tem mesmo. Mas, individualmente, também têm de mudar os pais, os professores, as contínuas da escola ou colégio em questão, as vizinhas, as avós e toda a gente responsável pela educação da criança.

Custa-me muito pensar que as crianças e adolescentes que hoje em dia vejo vão ser os colegas de trabalho e vizinhos da "piquena" a quem eu tento dar uma educação razoável, no meio desta multidão de imbecis e ocos.

Tenho dito!

Mais uma vez Diogo, bom artigo!

 

Paulo Costa escreveu, a 6 de Janeiro de 2009:

Bem, se calhar deveria abster-me de comentar um artigo escrito por um filho meu. Mas por outro lado, tal poderia parecer injusto para o próprio e também para outros, cujos artigos já tenho comentado. Por isso aqui vai, não um comentário ao (bom) artigo, mas antes um comentário suscitado pelo artigo.

O sistema de Ensino, em Portugal, falhou completamente. Não é o único, entre os grandes sistemas públicos, a sofrer desse destino: a Justiça conseguiu a proeza notável de se auto-destruir ao ponto de se tornar, não apenas irrelevante, mas já mesmo perigosa para os cidadãos e nociva para a Economia. Os sistemas de Segurança, as polícias várias, não estarão muito melhores. E nem é bom falar do sistema político, do Parlamento e dos partidos. Mas há um, entre os grandes sistemas públicos, que, no meio de grande gritaria, se distinguiu pela positiva: o Sistema Nacional de Saúde (SNS). Sejamos objectivos: enquanto que, na Educação, se conseguiu pôr os jovens portugueses na cauda das tabelas da OCDE em Matemática, Ciências e Línguas, o SNS produziu o resultado oposto: colocou Portugal no TOPO das tabelas em muitos indicadores de saúde pública fundamentais, como a mortalidade infantil e a incidência de muitas doenças infecciosas. O mesmo Estado que falhou miseravelmente noutros domínios, por cedências ao facilitismo e à incompetência dos profissionais (p.ex professores e juízes), aos interesses das corporações e ao popularucho, conseguiu impôr-se, definir objectivos úteis e executar o plano pragmaticamente e sem demasiadas cedências, de forma consistente ao longo do tempo e com o sucesso já referido. Independentemente de queixas frequentes sobre a qualidade do serviço prestado (mais justificadas nos Centros de Saúde do que nos Hospitais), o sistema cumpriu e fez o que era suposto fazer.

Na Educação, para além dos defeitos bem apontados pelo Diogo, alguém se esqueceu do fundamental: o sistema de Ensino existe para ensinar. Deste desfocar do que deveria ser o objectivo principal decorrem as taras descritas: em vez de ensinar, o sistema entretem-se a experimentar "novas pedagogias", a aldrabar os resultados e a despejar mais e mais privilégios absurdos em cima dos professores, por medo dos sindicatos (obviamente os menos interessados na qualidade do ensino). Os pais, sobretudo os pais mais pobres (oh, ironia!) pouco ou nada podem fazer. Nem sequer são autorizados a escolher a escola para onde mandam os seus filhos (compare-se com os hospitais), não fosse terem a péssima ideia de privilegiar as menos más. 

A Escola existe para ensinar, isto é, para dar informação àos alunos. Isto mesmo já foi descoberto há muito tempo pelos países que resolveram o problema. Cargas horárias, formação e colocação dos professores, contratação de auxiliares, organização das escolas, disciplina, grau de exigência, são todas condições instrumentais, isto é, meios para atingir um fim. 

Se perceberam isto na Saúde, teriam de percebê-lo na Educação.

 

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