Conversa de Sala de Espera
escrito por Daniel "o Viking de Bergen" Matos, ilustre especialista em questões de política e de literatura.
Publicado em 12 de Fevereiro de 2010 | 7 comentários
Há dias fui à minha consulta semestral do dentista, ali no Marquês de Pombal. Enquanto aguardava que alguém gritasse o meu nome, ouvi na sala de espera dois tipos na conversa, enquanto folheavam o jornal que estava em cima da mesa. Foi mais ou menos assim…
- Ouviste falar naquela coisa dos islamitas na Suíça?
- Passei os olhos em algo do género no jornal, num destes dias. Até à data nem sabia o que era um minarete.
- Eu pensei que aquela antena que existe no Monsanto era um. Em todo o caso, acho estranho proibirem-nos de construir uma torre ali ou acolá. Se o país é livre deveria aceitar essas coisas. Talvez os minaretes escondam ogivas nucleares no seu interior. Temerão que o Islão invada a Suíça?
- O Islão não é um país.
- Também o Benfica não é, mas tem mais força e apoiantes que a Igreja Católica em Portugal! Quando o Benfica joga o país pára. Devia ser feriado nacional!
- Feriados já nós temos que cheguem…
- Descanso nunca é demais. E a maioria deles são católicos. Bendita Igreja!
- Gostava de saber o que diriam os islamitas disso…
- Pois então!, são uma minoria, têm de se sujeitar. Metade das pessoas que eu conheço são católicas.
- Ora essa, o Estado é laico. Que conversa é essa de minoria? E se eu for um judeu com vontade de trabalhar e não souber o que é a Assunção de Nossa Senhora?
- Ninguém sabe, de qualquer das formas. Toda a gente vai festejar a Páscoa para o Algarve. Há que respeitar as antigas tradições existentes no país.
- Continuo sem perceber para que serve o festejo do Dia de Todos os Santos se a seguir comemoramos em festas de outros santos específicos… E o que faz dos feriados tradições nacionais?
- Tradição é tudo o que fazemos pelo menos em dois anos seguidos.
- Então tudo seria feriado…
- Mas olha lá, queres acabar com o Natal também?
- O Natal é óptimo para receber prendas. Mas não deixa de dar que pensar: qual é o sentido de escrevinhar na Constituição que o Poder não se mistura com a religião se a seguir comemoramos a nível nacional acontecimentos de santos e ressurreições?
- O que é que sugeres? Arranjar um punhado de feriados favoráveis a todas as religiões? Ninguém mais trabalhava!
- Não, não, mas um país deve comemorar acontecimentos que lhe digam algo historicamente, e não o Santo António. Que os católicos continuem a festejar, que eu gosto sempre de beber uma cervejinha em Alfama no 13 de Junho. Mas não é justo conceder uma folga à malta. Já quase ninguém vai à missa ao Domingo, os praticantes e os que ligam a isso não podem ser assim tantos.
- Ao sétimo dia, o Senhor descansou! Não me digas que queres abolir os Domingos!
- De maneira nenhuma, o próximo fim-de-semana é grande, vou com os miúdos e a patroa para Vilamoura. É o Corpo de Deus. Olha, é a minha vez. Vemo-nos por aí.
- Se Deus quiser!
daniboy escreveu, a 14 de Março de 2010:
Comentários políticos à parte, mas é comum confundir-se estado laico com estado ATEU, o que é absurdo. Um estado não deixa de ser laico por simplesmente atribuir um feriado religioso a Santo Antônio, São Francisco de Assis ou a algum outro santo de mesma hierarquia.
Já estou no Brasil faz algum tempo e a prova de que um estado democrático de direto pode ser laico sem ser ateu consta no preâmbulo da nossa Constituição, onde há expressa apologia ao cristianismo, nos termos:
"Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático (...) promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil."
Um estado laico deve limitar-se a não motivar os seus atos administrativos com fundamentos religiosos (ex. decisão judicial que condena fulano a pena de prisão, sob o fundamento de que traição é pecado na Bíblia), sem que haja, obviamente, prejuízo da liberdade religiosa individual, afinal, o estado serve para tutelar os interesses da sociedade, e não o contrário!
Pierre la Coste - o barão das Desertas escreveu, a 1 de Março de 2010:
Daniel, meu irreverente ideologo de esquerda ( daquela mesmo radical... ), quem disse que progresso histórico era sinonimo de tradição?
Progresso histórico não será nunca uma data, um facto ou um acontecimento isolado, enfim, um feriado - progresso histórico será antes de mais uma evolução do pensamento, mais fait atention, uma evolução geralmente facciosa, avaliada aos olhos de cada um - karl marx, por exemplo, acreditava que a sociedade iria progredir gloriosamente, de revolução em revolução, até ao comunismo. Hitler acreditava que os arianos eram seres superiores e que o supremo progresso seria eliminar todos os outros, tolerando a prazo uns desgraçaditos para a execução de tarefas menos nobres! Para mim, progresso histórico é conseguir aceitar todo o tipo de modernidade consiliando-a com um enorme respeito pela tradição, pelo património, pela natureza, pela identidade - devo confessar que esse respeito é um pouco deficitário aqui na Ilha, ás vezes penso que AJJ é teu correlegionário - os comunistas, que só governaram o nosso pais durante o PREC, fizeram um esforço imenso em destruir tudo o que tivesse a ver com o passado, tentaram ser modernos renegando o passado - usaram um modelo de "progresso histórico" que já tinha sido testado pelos sovietes sem qualquer tipo de sucesso.
Eu não sei se és comunista ou não, mas o teu DNA leva-me a desconfiar que és e és daqueles mais ortodoxos, revisitei o artigo da palestina, o da argentina, o do grandioso recem aclamado herói nacional AJJ - e a verdade é que estão lá todos os ingredientes, a cegueira do costume, a confusão entre uma pequena parte e o todo, enfim, o facciosismo do costume, estes tiques e os excessos totalmente imperdoaveis fizeram com que esta crença entrasse em total insolvência!
Sou anti-comunista exactamente na mesma medida e coma mesma paixão que sou anti-benfiquista, grande parte dos meus amigos são lampiões e infelizmente não posso fazer nada nem me passa pela cabeça deixar de ser amigo destas pobres almas - mas o que importa é que posso ser anti aquilo que bem me apetecer - não há aqui qualquer tipo de ferida por sarar - faz é parte das regras do jogo democrático concordar ou discordar!
Viva o 25... de Novembro! Esse sim, traduziu-se num enorme progresso histórico para o país!
Forte Abraço,
Pierre La Coste
Daniel Matos (autor do artigo) escreveu, a 1 de Março de 2010:
Se é um facto que as ideologias de cada um definem a orientação dos discursos, não é menos verdade que os comunistas (aos quais prontamente me associa o barão das Desertas) deixaram de comer crianças no primeiro acto da manhã. Atentando a estas premissas, não consigo deixar de pensar que comentários deste tipo (apesar de admirar a paixão com que são feitos!) são descontextualizados e obra de algum tipo de ferida ainda por sarar.
Deixada esta apreciação, se é que é permitida a alguém tão novo por estas andanças da escrita como eu, gostaria ainda de margem de manobra para falar de alguns aspectos que julgo relevantes.
Primeirissimamente, distinguir com verdadeiro apreço a veia revolucionária do referido leitor e a relevância que atribui aos acontecimentos de 31 de Janeiro, que constituíram o arranque do movimento antimonárquico português. No entanto, relembro que já existe um feriado associado à implantação da República e que, se fossemos comemorar todos os levantamentos frustrados de um passado mais ou menos recente, teríamos de trazer à memória inúmeros acontecimentos como as Revoltas das Caldas, da Mealhada ou dos Marinheiros – sem dúvida importantes – que preencheriam as nossas semanas de tal forma que trabalhar se tornaria impossível.
Em segundo lugar gostaria de esclarecer que não estou a “embirrar” com nenhum tipo de costume ou crença secular. Apenas sugiro, no meu artigo, que a ideia de desfrutar de um dia de descanso por motivos religiosos me parece um propósito ultrapassado e que já pouco tem a ver com a liberdade espiritual que se pretende num país laico. E se Portugal não é só Lisboa, palco comemorativo do Santo António (como o atento Pierre la Coste lembrou), também é verdade que a Igreja Católica não é Portugal, pelo que as suas datas festivas pouco têm a ver com o progresso histórico do país.
Pierre la Coste - o barão das Desertas escreveu, a 28 de Fevereiro de 2010:
Lembrei-me agora, meus esquerdoides amigos - O Santo António é feriado... em Lisboa!
Pierre la Coste - o barão das Desertas escreveu, a 27 de Fevereiro de 2010:
Didicas - meu caríssimo aprendiz de provedor, claro que a ideologia do Daniel condiciona totalmente os conteudos dos seus artigos, isso parece-me obvio,nenhum social-democrata ou liberal se envergonha das suas tradições - só os iluminati vermelhati, que sabem tudo, tudo, tudinho, é que são contra este riquissimo património de celebrações mais ou menos religiosas. Portugal não é só Lisboa! Fora da cidade estes feriados são vividos em festa, recolhimento ou em oração - estou muito confortavel a afirmar isto porque sou agnóstico!
Reconheço no entanto que talvez possa haver um ou outro feriadito a mais - se o 25 de abril é feriado porque é que o 31 d janeiro não é???
Didicas escreveu, a 26 de Fevereiro de 2010:
Pierre la Coste tem uma opinião forte sobre questões políticas, o que sucede também com Daniel Matos, o reaccionário. Neste artigo, no entanto, parece-me que Daniel apenas procurou deixar no ar a ideia de que, por vezes, a tradição se sobrepõe grandemente à lógica e até mesmo à própria lei.
Numa sociedade como é a nossa actualmente, é um pouco obsoleto celebrar-se o corpo de Deus ou coisa que o valha, pois provavelmente a maioria das pessoas não sabe sequer o que isso significa, e penso que era essa a ideia de Matos quando escreveu este texto que até tem um interessante cariz humorístico. Comunismo tem pouco a ver com o assunto!
Pierre la Coste - o barão das Desertas escreveu, a 26 de Fevereiro de 2010:
Uma vez mais o amigo Daniel revela aquilo que é - um reacionário da pior especie - contra tudos e contra todos - agora embirra com oito séculos de história e tradição - vamos abolir todos os feriados menos o 25 e o 1º, de Abril e de Maio claro está! A broca do dentista do burguesissimo Marques de Pombal poderá ser a explicação para tanta azia...
Companheiro Daniel, Camarada Daniel, uma vez mais te digo, dedica esse QI que tens para ai na tua cabecinha vermelha para construir e não para "botar abaixo" - olha, aproveita um feriadinho para vir aqui ajudar a limpar a Ilha.
Saudações muito pouco ou nada Comunistas!
Pierre La Coste


