Por qué no te callas?
escrito por Daniel "o Viking de Bergen" Matos, ilustre especialista em questões de política e de literatura.
Publicado em 11 de Março de 2010 | 5 comentários
Simón Bolívar foi o líder das revoluções que libertaram muitos países da América Latina do domínio colonial espanhol no início do século XIX, sob a égide da união entre os povos sul-americanos e a independência política e económica dos mesmos. Marx, no entanto, descrevia-o como o típico representante da burguesia local ao serviço do imperialismo britânico, cujos interesses não abrangiam o bem-estar dos escravos e a melhoria das condições de vida dos trabalhadores. Não obstante, a sua imagem foi usada como um símbolo da liberdade e da revolução pela esquerda socialista em toda a América do Sul.
O nome do revolucionário voltou à baila nos últimos anos a pretexto de uma nova revolução que tem vindo a ter lugar, segundo os que o invocam, no continente. Hugo Chavéz, presidente da Venezuela, tem falado numa Revolução Bolivariana desde que alcançou o poder, revolução que permitiria chegar a um novo socialismo.

Independentemente do nome que lhe tenha dado, a verdade é que Chavéz conseguiu minimizar alguns dos problemas mais profundos do seu país, equilibrando a economia, aumentando o poder de compra da população e diminuindo significativamente o número de venezuelanos a viver abaixo da linha de pobreza. Ao mesmo tempo reconheceu direitos culturais e linguísticos às comunidades indígenas, conseguiu expandir o acesso a cuidados médicos e à educação, muito à custa do petróleo que possui e que sustenta as contas da Venezuela.
É importante ter em conta, apesar de tudo, que estamos a falar do homem que expulsou diplomatas do país por estes não concordarem com o seu modelo governativo, que encerrou uma estação televisiva por não transmitir o seu discurso em directo – algo que tornou lei depois de subir ao poder – e que acusou os Estados Unidos, país com o qual criou forte desaguisado e que identifica como inimigo (algo que poderia fazer mais sentido no tempo de Bush…), de ter provocado o sismo que devastou o Haiti. Estará implícito, então, que daqui não pode sair só coisa boa.
Chavéz aumentou o espaço de intervenção do Estado, centralizando o poder e controlando ao mesmo tempo a Assembleia Nacional, o Tribunal Supremo de Justiça, a indústria petrolífera e o principal banco venezuelano. Na sua demanda pela democracia perfeita, aumentou o tempo dos mandatos presidenciais de seis para sete anos e tornou a reeleição ilimitada, dando-lhe a possibilidade de ser presidente infinitas vezes.
Uma ditadura é um governo cujo poder executivo absorve (ou dispensa) o legislativo. A mim parece-me que estas acções de Chavéz se assemelham em muito a uma tentativa de exercer e manter o poder de maneira pouco aconselhável, dando ares ditatoriais. A relação intransigente com a imprensa, a quem exige aceitação absoluta e a quem não admite críticas, pouco ajuda a afastar esta imagem. Gosto de tratar o Chavéz carinhosamente como o Alberto João lá do sítio. A maneira como ataca os seus opositores ao mesmo tempo que defende aguerridamente os seus interesses, o jeito populista com que atrai as massas e o autoritarismo com que trata os meios de comunicação social trazem-me sempre à lembrança o presidente do Governo Regional da Madeira a distribuir apoios financeiros aos jornais que lhe são próximos e a "deixar de gastar dinheiro com a imprensa do continente".
Por mais duras que sejam as críticas que se lhe apontam, duma coisa não o podemos acusar: Hugo Chavéz chegou com as urnas e, quer se goste ou não, pelas urnas tem seguido, conseguindo sempre o apoio da maior fatia da população nas eleições a que tem concorrido.
Simón Bolívar, na sua hipotética demanda pela libertação das classes oprimidas, suportada numa enorme força militar, acabou como um símbolo de liberdade e independência, herói de toda a América Latina. Hugo Chavéz, com o seu socialismo distorcido e a sua Revolução Bolivariana, surge como uma tentativa de salvador da pátria, como um Bolívar do século XXI, que tenta perpetrar não só o seu nome na História, como o seu poder enquanto presidente.

Pierre la Coste - o Barão das Desertas escreveu, a 17 de Março de 2010:
Companheiro Daniel - "AJJ lá do sitio"???? passaste-te de vez - para tua informação o Diario de Noticias local, o jornal de maior circulação, e a RTP Madeira, tem uma linha editorial totalmente hostil com o Governo Regional da Madeira e isso faz toda a diferença - aqui existem practicas verdadeiramente democraticas - na venezuela existem as divertidissimas "tardes com o presidente" - monologos de horas e horas transmitidos na TV estatal em que o presidente Chavez exulta o irão, a coreia do norte, esse grande povo revolucionário e progressista da China, o irmão Fidel, etc, etc - o homem, para alem de um ditador comum igual aos outros, é um fabuloso entertainer!
daniboy escreveu, a 17 de Março de 2010:
O discurso de Chavéz é totalmente ultrapassado em virtude do mundo globalizado em que vivemos. Já não há mais espaço para líderes como Chávez, Morales ou Fidel, tampouco para os movimentos populistas a quem os "ilumitati vermelhati" (adorei essa expressão quando a vi em outro comentário e não resisti em copiá-la =P) preferem chamar de bolivarianismo.
Até o próprio Lula, ex-metalúrgico e ex-sindicalista, teve que se vender ao liberalismo, abdicando de seus ideais esquerdóides, pois sabia que era a única saída para o desenvolvimento do Brasil.
Fiquei abismado quando soube que a Venezuela está em vias de ingressar no MERCOSUL, pois pra mim esse país, pelo menos com Chavéz no Poder, só vai atrapalhar nas negociações do bloco.
Muito bom artigo!
Obs - só esqueceste de falar do patrocínio de Chavez com as FARC! =P
Didicas escreveu, a 17 de Março de 2010:
E no meio disto tudo ficámos sem saber a opinião de Matos sobre a existência de Chávezes e outros que tais por esse mundo fora. Será que, de um ponto de vista global, este tipo de líderes fazem mais bem do que mal?
Paulo Costa escreveu, a 14 de Março de 2010:
Esta é uma história sobre um tema velho, o poder e o seu exercício sem restrições em nome, sempre, de ideais supostamente nobres. Chavez é um ditador, antes de tudo. É um dirigente político que, tendo vencido umas eleições, decidiu que o país "precisava" dele e que pottanto ele teria de "servir" o país mantendo-se indefinidamente no poder - presumivelmente com grande sacrifício pessoal! Este método de usar a democracia para alcançar o poder e, uma vez aí instalado, subverter as regras e usar a força, a intimidação, o terror e a mentira para impedir a sua própria substituição, não é novo. Hitler, por exemplo, usou-o com igual cinismo e, durante algum tempo pelo menos, com sucesso pessoal indiscutível. O mesmo fizeram inúmeros outros farsantes e psicopatas, como Castros em Cuba e os dirigentes comunistas nos países da Europa de leste após o final da segunda guerra. Mussolini escolheu o mesmo caminho e conseguiu aguentar-se vinte anos. Cuba é a desgraça que se sabe, a Europa de leste enterrou os comunistas, Mussolini e Hitler acabaram violentamente as suas carreiras, não sem antes, como os seus colega ditadores, terem causado miséria, sofrimento e morte a incontáveis seres humanos.
Não sabemos quanto tempo vai durar a ditadura de Chavez. Pode, de facto, durar décadas. Ele já pouco precisa de eleições a fingir, porque o seu domínio sobre o país e as suas principais instituições já é suficientemente forte. Os tribunais estão subjugados, a imprensa livre foi destruída, a liberdade individual tornou-se exígua ou nula, sindicatos não existem, a escola forma fanáticos ignorantes adoradores do Chefe e o aparato repressivo do Estado está já bastante apurado. Ainda bem para ele, porque entretanto a economia foi destruída, não há trabalho, os bens escasseiam e iria tornar-se cada vez mais difícil vencer eleições, mesmo com as mais descaradas e imaginativas fraudes e manipulações.
Chavez é, portanto, um ditador bem sucedido. Conseguiu o que todos os ditadores almejam, governar sem oposição, sem críticos e sem limites. Como sempre nestas coisas, o seu sucesso faz-se à custa da miséria e humilhação do desgraçado do seu povo. Mas que se há-de fazer?! Os Venezuelanos podem perder a liberdade, o emprego, os bens e até a vida, mas têm o Chavez, caramba!!! Não se pode ter tudo, ó ingratos.
Miklos escreveu, a 11 de Março de 2010:
«Gosto de tratar o Chavéz carinhosamente como o Alberto João lá do sítio.»
Haja alguém que me compreenda... xD
Basicamente, acho que é uma frase que resume o que realmente se passa na Venezuela, pois as nacionalizações foram re-feitas (os magnatas da oposição haviam privatizado uma infinidade de empresas, o que deixava o Estado venezuelano praticamente sem receitas) para trazer riqueza para o SEU povo e as "turras" com a comunicação social são fruto das notícias manipuladoras que os canais televisivos passam (influenciados pelos seus maiores accionistas, que, curiosamente, são SÓ os líderes da oposição).
A embirração com os EUA... É fruto de um homem do povo, que cresceu a ver o EUA a serem donos e senhores do Mundo, a explorar tudo e todos os que podem e a fazerem o que lhes dá na real gana (que, geralmente, acabam em guerras).
Um grande abraço, Dani! ;)


