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Não-Fazer-Nada

Inês Guterres escrito por Inês Guterres, a especialista em linguagem audiovisual que empresta também às nossas hostes um conhecimento muito profundo sobre arte e design.

Publicado em 21 de Janeiro de 2010 | 4 comentários

 

 

 

BocejoCaros leitores, passados alguns meses desde que o Cachimbo inaugurou, estreio-me com um artigo completamente fora dos contextos até agora abordados.

Exploro aqui um assunto, digamos, “delicado”, talvez até considerado tabu por grande parte da população.

“Não-fazer-nada”! Mas… Em que é que isso consiste precisamente?

Ora bem, primeiro e antes de tudo, há que fazer uma lista dos locais onde “não-fazer-nada” é mais evidenciado:

No trabalho – Aqui abunda a mencionada problemática, apesar de ser o local onde as pessoas menos falam sobre ela. É aqui que reside o verdadeiro tabu!

Em casa – Segundo local onde mais se manifesta, embora seja onde é mais facilmente contrariado.

Nos transportes públicos – Milhares de pessoas sofrem disso diariamente mas geralmente é ignorado porque “é fogo de pouca dura”. Com a excepção das grandes viagens em que as pessoas, por mais que tentem, são constantemente enfrentadas pelo “bicho” chegando mesmo a desesperar. É nestas viagens onde “não-fazer-nada” é muito mais difícil de contrariar se não se tiver previamente antecipado o problema (mas disso falarei mais à frente).

Nas salas e filas de espera em locais públicos – Quem espera, desespera! E esperar a “não-fazer-nada”… É preciso dizer mais?

 

Como identificar o fenómeno:

NadaOs sintomas são bastante claros, por vezes bastante perceptíveis a olho alheio e, sem qualquer ínfima dúvida, quando persistem tornam-se na maior pedra no sapato alguma vez sentida.

It all begins com uma pequena inquietação. Se se está em pé, começa-se a andar de um lado para o outro, se se está sentado, começa-se a sentir dormência nas partes mais inacreditáveis do corpo.

O segundo sintoma é a atenção redobrada no que se passa à nossa volta, principalmente se estamos acompanhados. A nossa atenção cai sobre as outras pessoas. Os nossos sentidos tornam-se mais apurados.

A nossa cabeça viaja até às mais “longínquas” lembranças, pensa-se e aborda-se mentalmente assuntos que, caso não existisse este problema, não lembrariam ao diabo!

A desconcentração prevalece.

A irritabilidade.

A busca constante por alguma coisa para fazer…

Qualquer tarefa mínima, incluindo trabalhos muito abaixo das nossas capacidades, nos deixa felizes da vida.

O tempo demora muito mais a passar. Olhamos para o relógio e passado meia hora, quando olhamos outra vez, afinal só passaram 5 minutos.

Numa fase mais avançada, chega o sentimento de inutilidade e lapso mental.

E por fim, quando “não-fazer-nada” chega ao seu nível extremo, leva-nos ao mais incrível dos desesperos!

Claro que estes sintomas variam de pessoa para pessoa. Depende muito da ocupação do indivíduo, da predisposição deste para se sentir ocupado, do nível de cansaço, da paciência, da personalidade, etc. Mas geralmente, de uma maneira ou de outra, mais cedo ou mais tarde, “não-fazer-nada” chega a toda a gente e devasta como uma praga de gafanhotos!

 

Como solucionar ou contrariar um
pouco “não-fazer-nada”:

Apesar de muitas das vezes o problema aparentar não ter solução, e de por vezes não ter mesmo, não percamos a esperança! Existe uma lista de coisas que se podem fazer para pelo menos contrariar e, caso não haja mesmo solução, atenuar os sintomas.

O primeiro passo é a prevenção! Quando já sabemos que vamos passar uma data de tempo a “ociar”, não há nada como tomar medidas precoces. Andar sempre com um leitor de mp3 e/ou um livro atrás é boa política. Nunca se sabe quando “não-fazer-nada” pode atacar…

PortátilNo trabalho, quando a situação é mais grave, convém instalar diversas “distracções” no respectivo PC ou MAC. Por exemplo, séries, filmes, jogos, música… Tudo muito discretamente. Usufruir das “distracções” quando não se está a ser observado, principalmente pelo chefe. Demonstrar sempre um ar bastante ocupado e concentrado ajuda a desviar as atenções de cima de nós. Convém também ter algo relacionado com o trabalho aberto no computador para clicar rapidamente quando recaem olhares sobre nós.

Quando não se tem nada disto, o Messenger, o Facebook e o Youtube são os nossos melhores amigos! O simples Google serve. Podem-se fazer as mais variadíssimas pesquisas, é só preciso ter imaginação. Até existem imensos jogos, por exemplo, clássicos como o Super Mario que se podem jogar online. Acima de tudo, tente não desesperar! A imaginação leva-nos até cerca de 24 horas de ocupação, ou mais…

Se não houver internet, o caso torna-se mais complicado, mas nada como um Solitário ou um Paint para nos distrair. Qualquer programa serve.

No caso das viagens grandes, onde os recursos costumam ser maioritariamente escassos, é impreterível que se leve backup. Primeiro é preciso ter em conta a duração da viagem. Depois, de acordo com isso, levar o/os instrumento/s necessário/s para manter “não-fazer-nada” afastado. Volto a mencionar o leitor de mp3 como instrumento base para quem gosta de música. Mas no caso das viagens de avião, onde não se podem utilizar objectos electrónicos, um livro (ou dois, depende do tamanho do livro, da duração da viagem e da nossa velocidade de leitura) torna-se um bem essencial! Isto para quem gosta de ler, claro.

Para quem tem portátil então não há melhor! O problema é que o portátil tem duração limitada devido à curta vida das baterias. Ter mais do que uma bateria é uma boa solução.

Ter sempre um caderno e caneta, ou lápis, ou qualquer coisa que dê para riscar, escrever ou desenhar… É sempre um bom instrumento para cultivar a nossa criatividade, e nem imaginam o tempo que passa se nos concentrarmos a encher um papel de coisas.

Quando não há backup, o caso torna-se complicado. A calma e a imaginação são as chaves para um bom contorno aos efeitos de “não-fazer-nada”.

Infelizmente não posso generalizar esta parte pois depende muito de onde se esteja e do que se tem à mão. Recorrer ao telemóvel é a solução mais simples nestas ocasiões. Mas basicamente qualquer coisa serve para uma boa distracção. Se não houver mesmo nada, sempre se pode observar as pessoas e imaginar histórias sobre elas…

Enfim, acho que de facto a solução do problema reside em não pensar nele, não desesperar! Se não se estiver a fazer mesmo absolutamente nada e se não houver nada de nada que se possa fazer, acho que não pensar que se está a “não-fazer-nada” é o melhor. Rezar e deixar que o tempo passe e aprender para a próxima se prevenir!

Eu sou uma infeliz vítima de “não-fazer-nada”! Passo a maior parte dos meus dias num estágio em que estou condenada a não fazer nada de jeito (como grande parte dos estagiários, segundo o que se diz), por isso inventei esta “lengalenga” toda para poder passar a minha tarde de Sexta-Feira sentindo que fiz algo de produtivo. E sabem de uma coisa? Funcionou! Este texto manteve-me ocupada durante a tarde toda. Confesso que também fiz por demorar horas a fio a fazê-lo para ter sempre ocupação. Sigam o meu exemplo e produzam inutilidades! Por mais inútil que seja o trabalho, uma pessoa chega sempre ao fim do dia com uma sensação boa porque “produziu”.

Se quiserem comentem e escrevam-me os vossos problemas de “não-fazer-nada” que eu tento solucioná-los. Ou então escrevam mais opções para acabar com este flagelo!

E pronto, com isto me despeço. Até à próxima tarde de ociosidade!

 

Comentários

 

Bob Totmauß A.K.A. Mr.Eule escreveu, a 27 de Janeiro de 2010:

Bem... uma bom texto, mas o conceito de não fazer nada poderia dividir-se em dois pontos...

O não fazer nada na essência que seria a inércia física e mental...

e o segundo, o qual nos aflige devido a imposição moral/cultural de um mundo capitalista e, conseqüentemente, dinâmico, seria um fazer nada de não trabalhar em algo que seja produtivo. E no produtivo podemos encontrar mais duas concepções: me refiro ao produtivo no âmbito social; uma atividade que envolva mais de um indivíduo com um mero fim de distrair a mente com algo que tenha um fim relevante (e isso cabe à perspectiva de cada um); e por fim o produtivo essencialmente capitalista donde nos vemos obrigado a subsistir exercendo algum tipo de atividade que venha a gerar lucro ou renda. E o primeiro sentido está subsumido a este.

Para mim pensar é uma das atividades mais produtivas do ser humano. 

E, no segundo sentido, brincar no paint sem propósito é "fazer nada"...

Enfim... cada um com sua opinião e seu modus vivendi!

Saudações

 

Henrique escreveu, a 21 de Janeiro de 2010:

E onde pára tempo para pensar?

Todas essas sugestões podem ser boas para quem quer estar distraído em todos os tempos mortos, mas pessoalmente não vejo como não-fazer-nada possa ser assim tão mau. É tempo que pode ser rentabilizado a pensar.

De qualquer forma é um bom texto.

 

Miklos escreveu, a 21 de Janeiro de 2010:

Grande estreia! :)

(E com isto não me refiro à longevidade do texto, atenção... :P)

Até porque tem alguns conselhos úteispara a minha pessoa... Sim, eu assumo: sou um "nada-fazente"!

Quer seja em casa ou na faculdade (de trabalho anda escasso, infelizmente... :S), sou um preguiçoso nato, o que me vale uns valentes "puxões de orelhas" de vez em quando... :S

Mas é algo que já mentalizei que vou ter de alterar drasticamente, para o meu bem e para quem me rodeia. ;)

Beijinho grande (se me permite a intimidade... :P) e vou ficar a aguardar pelo próximo artigo! :)

 

Diana Tereno escreveu, a 21 de Janeiro de 2010:

Amiga, acho que depois das pessoas lerem isto nunca mais vão ter de se preocupar com o bicho papão "não fazer nada"! Acabou-se a falta de opções!

P.S. Garanto que num avião há maneiras mais interessantes para contornar o "não fazer nada"!

E com esta me despeço...

Diana Tereno

 

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