O Segredo
escrito por Inês Guterres, a especialista em linguagem audiovisual que empresta também às nossas hostes um conhecimento muito profundo sobre arte e design.
Publicado em 28 de Fevereiro de 2010 | 4 comentários
Caros leitores, eu poderia começar por falar sobre o sentido da vida. Afinal, está tudo relacionado. Mas por quê falar sobre aquilo que não tem explicação ou sequer discussão? Na verdade, minto ao dizer que não tem discussão, porque realmente tem e muita. Eu própria fui “vítima desse mal” durante anos a fio. O que quero dizer é que não quero monopolizar os comentários do nosso ilustre site abordando uma questão que tem infinitos pontos de vista e guiaria os leitores à realização de inúmeros debates e nenhuma conclusão...
Sendo assim, deixo aqui só um cheirinho do meu ponto de vista sobre o que acho que pode ser uma boa perspectiva de vida – e não o sentido dela.
Começo por falar sobre um livro que, não querendo tirar os créditos a Rhonda Byrne pelo seu sucesso – afinal, foi o livro de não-ficção mais vendido em todo o mundo – nem querendo ofender os inúmeros fans, acho, digamos... “Mau” (mais para a frente o uso das aspas fica explicado).
O livro chama-se “O Segredo” e daí “plagiei” o título do meu artigo. “O Segredo” não passa de uma data de excertos de entrevistas e escritos de pessoas alegadamente conhecedoras do tal segredo e que tiveram sucesso na vida por causa dele. Excertos esses que, a meu ver, parece que foram colocados repetida e aleatoriamente. A autora alega que a maioria das pessoas que têm ou tiveram sucesso na vida conheciam um grande segredo e dá exemplos que vão desde Platão a Einstein.
Segundo Byrne, o segredo existe desde que o Homem se lembra, conhecido apenas por um grupo restrito de pessoas, todos grandes mestres, génios e filósofos, e mantido, até hoje ser revelado através do seu livro.
Na contra-capa do livro vem escrito:
“À medida que descobrir O Segredo, ficará a saber como pode ter, ser, ou fazer tudo aquilo que deseja. Descobrirá a verdadeira magnificência do que o espera.”
Mas... Será que eu li bem? Ao ler este livro eu irei ter, ser ou fazer tudo aquilo que desejo?
A autora não se fica por aí. Afirma com toda a certeza de que o segredo nos dá tudo o que desejamos, felicidade, saúde e riqueza! Tudo através de uma tal de “lei da atracção” que fala durante o livro todo sem explicar bem como o fazer. Afirma igualmente que se pensarmos muito que queremos uma coisa a conseguimos.
Ora bem, então, segundo o livro, se eu ansiar muito ganhar o Euromilhões ganho-o com toda a certeza. BULLSHIT! Se isso fosse verdade, então toda a gente no mundo seria feliz, não haveria fome nem guerra, só haveria paz, riqueza e felicidade entre os povos. Com a descoberta deste segredo, simplesmente não haveria o Diabo! Mas aí também não haveria Deus e, consequentemente, não haveriam as religiões, nem a política, nem o mal, nem o bem... Pois, parece que sem o mal não existe o bem. Será que foi por isso que o segredo se manteve escondido durante tanto tempo? Porque se não houverem coisas negativas as coisas positivas deixam de ter significado? Simplesmente não existiriam. Porque o bom não existe sem o mau. Se toda a gente no mundo fosse feliz, será que a felicidade existiria? As coisas que hoje em dia fazem sentido na nossa vida simplesmente deixavam de fazer sentido. Porque é que sabe bem ter saúde? Porque estar doente é esterco! Porque é que alguns momentos são bons? Porque outros são maus. É a lógica da batata! E essa lógica é a Vida!
É claro que nem toda a gente pode ter acesso a este livro, logo, o que digo não faz muito sentido. Há tanta gente no mundo sem acesso, sequer, a água, gente que não sabe ler ou escrever e sem ninguém lhe lhes ensine. Portanto, enquanto existir gente assim, podemos ser “felizes”. Mas pondo ilogicamente isso de parte, se toda a gente no mundo soubesse o segredo, então não haveria infelicidade no mundo e, por sua vez, também não haveria felicidade! Em que é que ficamos? Então será que o segredo é assim tão bom como muita gente o alega? Por esta lógica, de facto, não. Sem antíteses não existiria VIDA!
Enfim, toda esta lengalenga só serve para explicar parte do meu ponto de vista em relação à vida e não propriamente para desacreditar o livro. Acho que este já por si “se desacredita”. Não digo que “O Segredo” seja mau no sentido pejorativo da palavra, simplesmente acho mau as pessoas iludirem-se face à promessa eminente de que é só querer para ter. Acho a Fé algo poderosíssimo, mas não sei até que ponto isso afecta cada indivíduo...
O meu “segredo” é o seguinte:
Eu até acredito nisso do “é só querer para ter”, mas de uma maneira completamente diferente da que é ditada no livro.
O cidadão humano é um ser naturalmente infeliz. Toda a nossa existência baseia-se na busca incessante da felicidade absoluta e do sentido da vida. Suponho ter explicado já o facto de a felicidade absoluta não existir. Acredito que uma pessoa possa ser verdadeiramente feliz se os momentos de felicidade superarem os de infelicidade, que já por si é difícil e improvável, mas nunca através da anulação destes últimos.
O sentido da vida é algo que a meu ver não existe. Acho que o sentido da vida é andar à procura dele. Creio que, quando uma pessoa encontra o significado do sentido da vida, morre! Estas frases são contraditórias, mas não encontro maneira melhor e mais resumida de explicar.
Face a isso, a nossa busca incessante de vida torna-se inútil... E esta é a única frase em todo o artigo sobre a qual eu posso dizer de boca cheia que não acredito!
Quando se diz que “participar é que é importante”, pode não ser totalmente verdade em relação ao jogos, mas é verdade em relação à vida. O que importa é todo o percurso que fazemos, porque além da meta não há mais nada. E este percurso não é tão grande assim...
Então por que é que nos queixamos, perdemos tanto tempo a ser infelizes, por que é que damos tanta importância ao que a sociedade pensa (vivemos em sociedade, ok, mas...), por que é que nos conformamos com as coisas, muitas vezes com uma vida que no nosso íntimo consideramos medíocre, porque “é assim a vida e com os outros também é assim”, por que perdemos tempo a chatearmo-nos com pessoas alheias, por que damos tanta importância às trivialidades mundanas e muitas vezes somos presos pela nossa própria mentalidade conformista, por que é que perdemos tanto tempo a inferiorizarmo-nos – ou muitas vezes a não ter a humildade suficiente... “Porque É A VIDA”. Ok, JÁ OUVI!!!
Mas por que não fazer aquilo que quero? Quem me diz que não posso alcançar os meus sonhos? Claro que há coisas que... De facto não posso estar à espera de ganhar o Euromilhões, claro, não posso contar com aquilo que não depende de mim. Mas outros sonhos...por mais absurdos que sejam, como ser uma estrela em Hollywood, um artista famoso, o novo Bill Gates ou a nova Oprah... Why fucking not??? Outros conseguiram! E com certeza não foi a ouvirem dizer que não conseguiam. Ou se ouviram não ligaram nenhuma. Por mais sorte que se tenha na vida, a sorte também pode ser “criada” por nós. É só trabalhar para isso! Claro que a vida é uma merda e tal e tal, e, acreditem ou não, eu sou a primeira a dizer isso. “Ah porque não há dinheiro, não há trabalho...”. Procurem trabalho! Arranjem dinheiro! Estudem! Ou então conformem-se! Se a vida não proporciona um futuro brilhante, não faz mal, quando lá chegarmos sabemos que fizemos de tudo para o conseguir. E é isso o importante, o percurso.
Vá, eu também descrevi aqui exemplos de sonhos “bastante impossíveis” ao mais comum dos mortais. Mas a ideia chave que estou a querer transmitir é que se quiserem mesmo, mesmo, mesmo, tenham atitude e força de vontade – essas sim são AS palavras – e batalhem para conseguir o que querem! Porque quem batalha consegue sempre o que quer! Claro que a excepção confirma a regra, mas o que importa é a ideia.
E se não conseguirem o que querem, pelo menos não morrem a pensar que não tentaram (“What if?”).
Também há aquela teoria de quanto mais alto se sobe maior é a queda, mas eu acho que cabe a cada um de nós atenuá-la, ou seja, prevê-la. Prever no sentido de saber que há essa possibilidade e não partir do princípio que é o que vai acontecer.
O importante é ter esta filosofia positiva presente na nossa vida:
RULE THE WORLD OR DIE TRYING!
Enfim, também há que saber quando parar, mas não me vou esticar mais, poderia continuar por aí fora.
Este é apenas um cheirinho da minha mesmo muito elaborada opinião sobre a vida. É uma opinião muito pessoal e convido-vos a deixar as vossas críticas e opiniões sobre os assuntos abordados. Há criticas que prevejo como as várias contrariedades existentes nas minhas ideias que não foram assinaladas por mim própria. Só não me “batam” muito porque sou uma rapariga bastante sensível!
Despeço-me com um “sejam positivos” e “queixar não leva a nada”. E falo eu, a pessoa mais queixosa, descontente e revoltada à face da terra e infelizmente, ou não, muitos dos leitores que me conhecem não me vão deixar mentir.
Sim, falar é fácil, toda a gente o diz e eu concordo. Mas e se ninguém falasse?

Didicas escreveu, a 18 de Março de 2010:
Fui invadido por uma súbita coluna de intenso fervor quando vi este artigo noticiado no FaceBook, pois fiquei convencido que tinha sido finalmente descoberto o caminho para o dinheiro fácil e, consequentemente, para a felicidade, mas, como deveria ter previsto, tudo não passava de apenas mais um elaborado ardil.
As ideias desta emergente escritora agradam-me, bem como a tenacidade com que as defende. Claro que como sou da opinião de que "O Segredo" repete o seu conteúdo em cada uma das centenas de páginas que o compõem, passando constantemente a mesma mensagem escondida, mais ainda o texto de Inês me agradou. Espero que continue a partilhar com o público os seus pensamentos sobre a condição humana!
P.S. 1 - Queria aproveitar este espaço para exigir a implantação de um regime de quotas no vosso site, já que dos inúmeros membros que escrevem apenas um não possui um pénis;
P.S. 2 - O utilizador Diogo sugere que podemos todos morrer amanhã, ou até hoje. Espero sinceramente que ele esteja enganado.
Inesokas escreveu, a 3 de Março de 2010:
Olá a todos! Agradeço muito os comentários aqui deixados. Anyway, penso que o Diogo não percebeu bem a essência do artigo. Em parte alguma fiz qualquer referência à, digamos, durabilidade do percurso da vida. Não creio que se morresse inesperadamente amanhã mudaria uma vírgula ao que escrevi (nunca se sabe, mas...). Acho que a recordação dos momentos bons ou maus e a maneira como levamos a vida e nos arrependemos, ou não, do que fazemos, é válida tanto com uma "esperança média de vida" de um dia como de cinquenta anos!
Vou deixar aqui um exemplo estúpido:
Os meus amigos vão todos à Tailândia entre os dias 14 e 27 de Abril, viagem única! Mas essa data coincide exactamente com época de exames na minha faculdade. Chega a data prevista e não vou. Ora bem, se eu soubesse que ia morrer no dia 1 de Agosto, provavelmente iria à Tailândia e faria as maiores maluquices para aproveitar bem as últimas semanas de vida. Mas, sem qualquer indício ou sentença de morte prematura, parto do princípio, tal como a maior parte das pessoas, que vou morrer velha e acabada! Nesse caso, a ideia de ir à Tailândia, fazer maluquices e espalhar-me ao comprido na faculdade já não se torna tão apelativa. Isto é, se eu de facto me importar com a faculdade e estiver a medir as consequências... O que quero dizer é que não há maneira de sabermos a hora da nossa morte. Se por acaso morrer mesmo no dia 1 de Agosto e se essa história da Tailândia fosse verdade, ficaria destroçada por não ter ido, mas se voltasse atrás faria o mesmo pois não saberia que ia morrer. Onde há lugar para o arrependimento aqui?
Enfim, até nos comentários me estendo na escrita=p
Quanto à melhor forma de vida que o Diogo menciona aqui... Acho nobre. Clichê, muito cliché, mas nobre! Só discordo totalmente com a frase "ser feliz com a infelicidade que nos rodeia". Suponho que não o tenhas dito literalmente, mas não consegui deixar de apontar ;)
Diogo escreveu, a 2 de Março de 2010:
Boas, é tudo muito interessante mas a questão que voçes estao a considerar como certa é que vão morrer tarde, tendo tempo para recordar todos os vossos momentos, tanto felizes, como infelizes. Pois ja pensaram que podem morrer porque sim, sem aviso previo, ou mostras de...
A melhor forma de vida é a compaixao por si e pelo proximo. Lutar mas sem magoar, viver e reviver. Ser feliz com a infelicidade que nos rodeia. Mostrar amor e carinho quando ninguem mais mostra..
O tema aqui falado é vasto até mais não....
Como diz a ines, vamos mas é trabalhar e ser felizes..lol
Abraços e beijinhos pa todos
Matosinhos! escreveu, a 1 de Março de 2010:
Toda a nossa existência se baseia na busca da felicidade, mas não considero (como filósofo de meia-tigela que sou) o ser humano naturalmente infeliz por isso nem por causa nenhuma.
A ideia é chegar ao fim da vida e fazer uma avaliação retrospectiva e perguntar se valeu a pena. Dependendo da resposta, penso conseguir definir a minha participação na vida na Terra como feliz ou infeliz. É, como diz Inês, o percurso que realmente interessa, sendo que esta é uma corrida onde ninguém quer cruzar a meta.
Nos meandros, vou fazendo o possível por me ir sentindo bem e por coleccionar o maior número de histórias possíveis para contar aos meus netos daqui a uns anos.

