A questão Palestina

escrito por Daniel "o Viking de Bergen" Matos, ilustre especialista em questões de política e de literatura.
Publicado em 05-11-2009 | 5 comentários
O sionismo foi um movimento político que surgiu em finais do século XIX no qual o povo judeu disperso pelo mundo depositava a esperança de regressar ao velhinho reino de Israel, barbaramente assaltado e roubado pela Assíria no igualmente velhinho ano de 722 a. C. Uma pretensão legítima, caros leitores, já que me parece injusto impedir uma criança, que é o que
de melhor temos no mundo, de habitar o território onde morou o tataravô do seu tataravô (perdoem-me, mas não conheço terminações que me levem mais além na árvore genealógica) só porque uns mal-intencionados o ditaram há mais de dois mil anos atrás.
Tal e qual um casal apaixonado, decidiram juntar-se e escolher um lar: depois de ponderados locais tão dispersos como a Argentina, o Chipre ou o Congo, o destino ideal foi mesmo a Palestina. Do que os judeus não fizeram caso, ou simplesmente não se lembraram, foi o facto de esse mesmo território conter umas quantas pessoas por alturas da mudança. Quem também piscou o olho a este projecto do Querido, Mudei a Casa foram as superpotências mundiais Grã- Bretanha e França, que preparavam a partilha dos despojos do Império Otomano, o antigo inquilino, que vinha por aí abaixo.
A I Guerra Mundial teve consequências decisivas para a Palestina. Foi a Grã-Bretanha quem tratou de cuidar dos destinos da região a partir de 1918, com a promessa de a internacionalizar mais a umas quantas nações pertencentes ao Império em queda. Efectivamente, a Palestina foi o único desses países que não alcançou a independência. Isto porque, promessa aqui e promessa ali, os britânicos comprometeram-se também a contribuir para a criação de uma pátria judaica na Palestina preservando os direitos das comunidades não-judaicas (?!?). Note-se que o número de judeus naquele tempo não excedia 2/1000 da população palestina.
Como acontece em todos os condomínios, chegou a vez de a Grã-Bretanha delegar um novo senhorio a alguém que controlasse as hostes: a escolhida foi
a recém-criada ONU. Esta propunha a divisão salomónica em dois estados, um judaico e outro árabe. Ora, quem não queria ouvir falar de partilhas (quem aceitaria partilhar a casa com desconhecidos?) eram os judeus, que atiraram as resoluções das Nações Unidas às urtigas e fizeram a festa e se acomodaram, deixando aos outros um quartinho nos fundos e um rasto de sangue no caminho. Os palestinos mais snobs que se ofenderam com a iniciativa israelita mudaram-se para as redondezas. A esses chamaram de Refugiados. E quem nunca teve aqueles vizinhos chatos que fazem barulho e não cuidam das flores do quintal?
Campeões na quebra de acordos de paz e na chacina por uma Terra Prometida, os israelitas governam a região com o apoio dos EUA, país que vetou por 83 vezes no Conselho de Segurança relatórios que descreviam massacres e ataques massivos em zonas urbanas na Palestina, fazendo de Israel um Estado acima da lei.
Este texto que vos trago não é só uma lição de história, mas um relato do que ainda se passa hoje em dia. Há menos de um ano foram mortos, em 24 dias, por Israel, 1400 palestinos e ficaram feridos quase 5000, na sua maioria civis.
Adornada com muralhas em todo o seu redor, a Faixa de Gaza é um dos territórios do mundo com maior densidade demográfica, mantendo em si 1,4 milhões de habitantes para uma área de 360 km².
Vou recomendar à equipa técnica do Cachimbo a inclusão deste artigo na secção Casa & Jardim do nosso sítio na internet.

-----------------------------------
Paulo Costa escreveu, a 06-11-2009:
Este texto é doloroso de ler. E não é "apenas" porque milhares morreram e vão continuar a morrer no Médio Oriente, de formas e por razões que o texto nem sequer tenta descrever, muito menos explicar e menos ainda contribuir para evitar. Não, aqui há uma tragédia ainda maior.
O Daniel, de cujas boas intenções e de cuja boa índole não duvido e pelo contrário aprecio, é uma pessoa profundamente religiosa. No seu fervor, Daniel usa as armas que os teólogos da sua igreja, em cada época, decidem e mandam usar. A questão palestiniana é uma vítima particularmente lamentável deste excesso de zelo ortodoxo onde a objectividade é uma palavra vã e os mortos são uma mera arma de arremesso ideológico. Neste texto, Daniel está apenas interessado em identificar algo que não existe: um vilão, único, claro e indiscutível, cuja malignidade absoluta e repelente o faça, por contraste, sentir-se bem com as suas próprias convicções ideológicas. Em que pode isto ajudar, a quem pode isto ajudar? Aos palestinianos não, de certeza. Tenho muita pena de ver a generosidade desperdiçada desta forma, mas infelizmente isto não é de todo inédito. Basta ver os argumentos de outras igrejas contra o aborto ou o casamento homossexual (por exemplo) para perceber como facilmente a obscuridade da ortodoxia ideológica se sobrepõe à luz da tolerância, da generosidade, da racionalidade e do pensamento livre. Apenas os factos são revolucionários, as fabricações são sempre reaccionárias. Mesmo que os primeiros sejam incómodos para a nossa "boa" causa e as segundas pareçam ajudá-la. Que sejam os jovens a esquecer isto é a maior tragédia de todas.
Pierre la Coste escreveu, a 23-12-2009:
Estou ansioso à espera de um artigo sobre Estaline, esse grande justiceiro, Mao Tse Tung, o verdadeiro simbolo da democracia ou Kim il Sung, esse monarca da liberdade! A extrema esquerda é puro desperdicio de massa cinzenta. Este cronista, bom de pena e muito provavelmente tambem bom jogador de cabeça, perde-se em analises sectárias e totalmente desfocadas, ou então vai divagando com uma velhinha lente leika made in RDA que só foca a cor vermelha!
Daniel Matos (autor do artigo) escreveu, a 27-12-2009:
Optei por entrar nesta discussão acerca do meu artigo por considerar algumas acusações que me são dirigidas algo infundadas. O leitor Pierre la Coste esforça-se, no seu comentário, por colocar-me uma AK-47 na mão e por pouco não me responsabiliza pelos atentados do 11 de Setembro. Considero a tentativa algo forçada e o comentário vítima do mesmo mal de que sou acusado na crítica de Paulo Costa, limitado e fechado a chaves dentro de balizas ideológicas impenetráveis.
No texto confinei-me a dar a minha opinião sobre uma situação que julgo desigual e injusta, dando-lhe especial ênfase por ser uma questão actual. Talvez não exista o bom e o mau como lá está exposto, nem tem de existir uma separação por blocos como se tende por vezes a fazer, mas certamente existem o agressor e o agredido, e existem pessoas a morrer constantemente por causa deste conflito, pessoas que não são soldados do Hamas e que nunca pegaram numa arma.
Tenho para mim que sou uma pessoa razoável e nunca fui de extremos, tirando talvez no que toca ao Benfica. Quem me conhece certamente concordará.
O problema existe e revolta-me. Não me parece sensato chamar-me de estalinista por o denunciar.
Paulo Costa escreveu, a 6 de Janeiro de 2009:
Daniel, a tua escolha deste tema nada tem de aleatório - existem dúzias de situações iguais ou piores por esse mundo fora. Uma vez que escolhes tomar-nos a todos por criancinhas ingénuas, deixa-me dizer-te qual é o problema: este tema é (mais ou menos) actual e contem drama e sofrimento. Mas, infelizmente, tu nunca conseguirás contribuir em nada para resolver ou minorar, um milímetro que seja, a situação dos desgraçados envolvidos, pela razão simples de que a tua obvia posição política e filosófica não é moralmente credível. Foi isso que o leitor Pierre la Coste (que não me encomendou o sermão, é certo), no estilo truculento que há muitos anos se cultiva naquelas paragens insulares, quis dizer e com toda a razão: é uma pena!!! Quantos inocentes foram (e são) assassinados, quantos foram (e são) reduzidos à miséria material e moral mais abjectas por essa aberração criminosa que foi, e é, o comunismo? Onde está, onde esteve alguma vez, uma palavrinha tua de solidariedade para com esses desgraçados? Que tens a dizer a esses muitos milhões de mortos, a esses zombies espoliados da sua dignidade mais básica em nome dos amanhãs que cantam e de uma dacha para os chefes do partido? Que justificação encontras nessa chacina cínica de pessoas e de ideais? Quando a tua voz se erguer para condenar inequivocamente esses horrores, com a mesma paixão e repulsa com que falarias dos Nazis e falas (!!!) dos americanos e israelitas, os vivos (e os mortos) passarão a escutar-te. Até lá, infelizmente para ti e para todos, só poderão sentir-se revoltados.
Pierre la Coste - o Barão das Desertas escreveu, a 7 de Janeiro de 2010:
Caro Sr Matos, não ponha no ecran letras que não teclei - não lhe chamei estalinista - o que lhe digo é que facilmente nomeio cinco ou dez comunistas que foram verdadeiros monstros - será que o Sr Matos consegue encontrar um, só um, do lado social-democrata ou liberal ou mesmo socialista? Do tal lado mau? Mais cedo ou mais tarde irá concerteza evoluir para posições mais razoaveis...
Claro que há o agressor e o agredido... há pois há, só que os há nos dois lados!
Sintonize-se!
Um Forte Abraço Deste Democrata Que Vive Na Ilha da Madeira Com Excelente Indice de Qualidade de Vida Coisa que Foi Conseguida Obviamente Sem Qualquer Contributo dos Comunistas
Pierre la Coste
O Barão das Desertas

