Rio de Janeiro
Cidade Olímpica ou Cidade do crime?
escrito por Daniel Malta Cabral, luso-brasileiro recentemente licenciado em Direito e apreciador de uma boa sessão de cinema
Publicado em 10-11-2009 | 5 comentários
Nota da redacção - Este artigo encontra-se escrito integralmente em português do Brasil. Isto acontece porque o seu autor reside actualmente em Recife, cidade brasileira do Nordeste.

2009 tem-se mostrado um ano de grandes conquistas não só para o Brasil, mas principalmente, para a atual gestão do governo Lula.
Inicialmente criticado em seu primeiro mandato pela política assistencialista exacerbada, pelos grotescos erros gramaticais proferidos em comitivas e pelos escandalosos esquemas de corrupção arquitetados pelo seu partido (PT), Luís Inácio Lula da Silva, no penúltimo ano de sua gestão, presenteou o Brasil não só como sede do Mundial de 2014, mas também elevou o Rio de Janeiro ao status de cidade olímpica para 2016. A questão é, estará o país preparado para isso?
A começar por Recife, uma das cidades que sediarão o Mundial de 2014, e onde vivo atualmente, não se vislumbra qualquer planejamento urbanístico/paisagístico a ponto de viabilizar uma participação satisfatória no campeonato promovido pela FIFA. Ao contrário, nem sequer foi colocado um tijolo no local onde foi projetado o estádio, o trânsito é cada dia mais caótico e a segurança pública deixa bastante a desejar. De fato, não faço idéia de como problemas como esses poderão ser erradicados dentro de 4 anos.
Entretanto, quando se trata de violência urbana, o grande foco é mesmo o Rio de Janeiro. A situação é delicada, pois se de um lado a polícia não pode invadir os morros da cidade eliminando todo e qualquer possível criminoso, por ofensa aos direitos humanos dispostos na Constituição, do outro, as gangues continuam a dominar o narcotráfico da região, concentrando assim cada vez mais poder. Retrato disso foi o helicóptero policial derrubado semanas atrás em conflito armado entre a polícia e um bando de marginais. O governo, até agora, não tomou qualquer providência quanto a essa questão. Vejam esse vídeo sobre a matéria:
Apesar de não ser de maneira alguma contra esse tipo de patrocínio, creio que, ao invés de torrar verbas públicas apenas fomentando mundiais de futebol, Jogos Olímpicos e fazendo empréstimos bilionários ao Fundo Monetário Internacional (FMI), Lula poderia se preocupar um pouco mais em tratar dos problemas básicos e há muito tempo entranhados na sociedade brasileira, quais sejam, a educação, a segurança pública e a desigualdade social.

Como este é um site de discussão, abro a seguinte enquete:
Daniel Cabral, para o sítio de costume.
daniboy escreveu, a 10 de Fevereiro de 2010:
Entendi ambos os lados apresentados neste pequeno debate.
Didicas, em apertada síntese, destacou tudo de mais importante que eu tinha a dizer.
De Araújo, por outro lado, complementou o que eu tinha a dizer e não disse.
Bem, a minha idéia era simplesmente mostrar que o Brasil, atualmente, não tem a menor condição de sediar eventos desse porte, por conta de vícios de infra-estrutura e também por causa do problema da violência.
Entretanto, devo admitir que as idéias do meu amigo Israel são bastante coerentes, já que sem tais eventos o percurso que o Brasil teria que trilhar até o desenvolvimento, e quando falo de desenvolvimento falo de saúde, educação e etc., seria bem mais sinuoso.
A minha posição neste texto foi mais a de um velho reclamão, que acha que tudo está errado e que as coisas só tendem a piorar.
Finalmente, devo dizer que falar mal do Lula faz sempre bem, e isso, por si só, já fez valer o artigo. =P
Didicas escreveu, a 10 de Fevereiro de 2010:
Israel-san, não consigo deixar de concordar que um evento desta magnitude irá trazer um sem-fim de aspectos positivos ao seu país. E por esse motivo acho fantástico que o Brasil tenha vencido a batalha pela organização.
Meu comentário se destinava principalmente à forma assustadora como por vezes os governantes se perdem falando sobre joguinhos de futebol e salto em comprimento e esquecem os problemas básicos e essenciais que afectam o país.
Eu, como português, prefiro ver o meu governo a resolver os problemas do desemprego e da educação e também da pequena criminalidade do que a organizar um Euro 2004 ou uma Expo 98. Não é que o Euro 2004 seja mau: apenas não é o mais importante!
Israel Leite de Araújo escreveu, a 10 de Fevereiro de 2010:
Didicas,
Imagine que não tivéssemos nem a Copa, nem as Olimpíadas.
Vc acha que em 2016 estaríamos significamente melhores em segurança, educação, e etc?
Acho que não, acho que estaríamos, sendo otimista, um pouco melhor nesses aspectos e sem "o legado da copa" (grandes obras de infra-estrutura, mobilidade urbana, vitrine turistica, jovens carentes desportistas).
Todos os países que sediaram Olimpíadas proporcionaram a milhares de jovens carentes uma vida digna através do esporte.
Didicas escreveu, a 9 de Fevereiro de 2010:
Israel, irmão pernambucano, enquanto que é justo dizer que ter ganho a organização das Olimpíadas de 2016 foi uma grande vitória para o Brasil, especialmente quando os rivais eram países tão fortes como EUA ou Espanha, não consigo concordar com a sua última frase:
"Roubo vai ter e muito, mas já tem, que diferença faz?"
É claro que não vai fazer diferença, mas o problema é exactamente esse. O poder político preocupa-se, gastando tempo, dinheiro e esforço em questões que, sinceramente, não são tão importantes assim para o Brasil. Ao aceitar a organização deste evento, o governo do vosso país vai ter menos disponibilidade para lidar com os problemas que realmente interessam aos brasileiros, que foram já referidos pelo nobre e ilustre Malta Cabral: o crime, o ensino, a desigualdade social. Entre outros.
Israel Leite de Araújo escreveu, a 9 de Fevereiro de 2010:
Comecei a ler o texto empolgado, achando que Daniel tinha dado o braço a torcer e reconheceria as boas gestões do Lula, mas nao foi isso que aconteceu....Novamente criticando o melhor presidente depois das eleições diretas.
Discordo da sua posição de que o Brasil deveria primeiro arrumar a casa (resolver os problemas de violencia e infra-estrutura) para depois pensar em trazer eventos desse porte.
Acho que o país nao pode virar as costas para uma oportunidade dessas. Se o COI e a FIFA confiam em nós, porque não podemos? Ou será que os brasileiros corromperam as comissões eleitoriais? (Ironia)
Desbancamos EUA, Espanha entre outros na briga pela Copa. Cachorros grandes.
O Brasil vai ganhar e muito em infra-estrutura para mobilidade urbana, divulgação turistica internacional, investimentos em esportes para a população carente.
Roubo vai ter e muito, mas já tem, que diferença faz?

