Christiania

escrito por Daniel "o Viking de Bergen" Matos, ilustre especialista em questões de política e de literatura.
Publicado em xx-12-2009 | 0 comentários
Há um par de anos fiz uma visita fugaz a Copenhaga com um amigo. Muitas coisas se podem encontrar na civilizada capital da Dinamarca, sendo que nenhuma delas é aquela pequena estátua de uma sereia que é, actualmente, um dos maiores símbolos turísticos do país.
Num passeio nocturno que fizemos na altura, e guiados por uma amiga que lá fizemos, seguimos um dos muitos canais que irrigam a cidade até chegarmos à entrada de um bairro que ela sugerira apresentar-nos. Uma tabuleta anunciava-o. Esse bairro chamava-se Christiania.
Atravessámos a tabuleta com a solenidade de quem põe o pé no lado de lá duma fronteira de um país onde nunca esteve e avançámos até a um pequeno bar de madeira com um ambiente bastante familiar. Tanta pompa e circunstância não eram em vão. Christiania não era um bairro comum, como viemos a perceber.
A sua história remonta a 1971 quando, no fulgor do flower power, uma multidão de hippies e artistas ocupou os 34 hectares de umas antigas instalações militares em forma de protesto contra o governo dinamarquês. Daí saiu uma nova sociedade cujos ideais comuns passavam pela rejeição de alguns valores morais instituídos e, principalmente, capitalistas. Nesta Cidade Livre, como ficou conhecida, ninguém é dono da habitação onde vive e é proibida a circulação de carros. Existe uma consciência ecológica. Todos os tipos de serviços básicos foram introduzidos em favor da população no decorrer dos anos, desde escolas e correios à recolha de lixo e limpeza de ruas. Problemas comunitários são resolvidos internamente na base do consenso geral, de acordo com as suas próprias regras. Os habitantes pagam os seus impostos.
Christiania está encravada entre prédios e, não fosse a placa informativa erguida por dois totens esculpidos em madeira que atravessámos no início da visita, facilmente ignoraríamos o local. As casas são na sua maioria de madeira e as ruas não são pavimentadas: uma desafeição ao consumismo que pouco tem que ver com pobreza.
Várias foram as tentativas de expulsar os invasores das instalações por parte de órgãos estatais, tentativas, essas, frustradas devido ao elevado número de ocupantes e à enorme área em causa. Até que se decida o seu destino, Christiania goza de um estatuto especial e é vista como uma “experiência social”.
As vozes que se levantam contra esta comunidade afirmam que os seus moradores não pagam impostos de acordo com a valorização da zona ocupada e que o local abriga e facilita o tráfico de drogas – as drogas leves são aceites pelas leis locais.
Há quatro regras inquebráveis dentro dos limites do bairro, que funcionam também como lema de vida da sua população. Em Christiania, no hard drugs, rocker badges, weapons and violence (não há drogas pesadas, distintivos, armas e violência).
Pela minha fantástica experiência naquela noite, em que deixei o bar por volta das 3h30 da manhã com o sol já a aparecer ao longe, enquanto discutia os mais diversos assuntos com eloquentes embriagados que deixavam o local connosco, queria aqui acrescentar uma quinta lei sagrada existente naquele bairro de Copenhaga: é proibido tirar fotografias. Reparei nela quando o dono do bar saltou, qual leão enraivecido, na minha direcção a dirigir-me impropérios em dinamarquês (supus eu, que não sou especialista na língua) enquanto quase me arrancava a máquina da mão, depois de eu tirar a minha primeira – e única - fotografia no estabelecimento.

Partilho-a hoje convosco. Até à próxima!

