A Terra do Pai Natal

escrito por Daniel "o Viking de Bergen" Matos, ilustre especialista em questões de política e de literatura.
Publicado em 16-12-2009 | 0 comentários
As minhas viagens são sempre recheadas de improvisações, objectivos e, algumas das vezes, insucessos. Desde há bastante tempo que tenho a ideia de chegar ao Cabo Norte, no cimo da Noruega, famoso por lhe ser atribuído o ponto mais setentrional da Europa. A wikipédia diz que é apenas o segundo ponto mais a norte, ultrapassado por um cabo vizinho, mas a simbologia da zona está toda lá.
Com esta ideia no pensamento – e com o pensamento na aurora boreal – sugeri a uns amigos que me acompanhassem numa viagem ao cimo do continente para conhecermos a Finlândia. Este relato poderia ser igual a outros que já fiz sobre viagens passadas, não fosse o facto desses meus amigos (da onça) terem dito que não estavam muito para aí virados.
Que se lixe, pensei, vou na mesma.
Viajar sozinho é uma experiência engraçada. Para uma pessoa com uma personalidade como a minha tem os seus altos e baixos, já que sou suficientemente calado para aguentar os momentos mais solitários com alguma facilidade, e não tão extrovertido para interagir com estranhos sempre que aparecem. Mais calados que eu só os finlandeses, que alimentam o culto de não dizer nada a menos que se tenha realmente algo para dizer e para quem não existem aqueles silêncios incómodos nas conversas.
Munido do gorro e das luvas dobradinhos pela mãe e do gel desinfectante oferecido pelo pai (estávamos em Setembro, o auge da fobia em relação à Gripe A), cheio de entusiasmo e expectativas na mochila, mais um leque de três máquinas fotográficas descartáveis da Kodak de qualidade duvidosa – incrível como não consegui arranjar uma digital! –, lá fui eu direito a Tampere, uma cidade no sul da Finlândia.
O meu plano bem arquitectado passava por aterrar no Sul e subir até cá acima, passando para a Noruega, através de autocarros, comboios e, se fosse preciso, apanhando umas boleias. Tudo isto em dez dias. Tentaria dormir em viagens nocturnas ou em casa de contactos que arranjei através do couchsurfing (siga este link para ler o meu artigo sobre esse tema).
O meu bem arquitectado plano deu para o torto, claro, e cheguei a dormir na rua por duas vezes, no alpendre duma loja de safaris com huskys em Saariselkä e numa bomba de gasolina de Ivalo. Perdi autocarros por falta de atenção e fiquei a saber que os transportes para o Cabo Norte tinham acabado no final de Agosto, ao contrário de todas as informações que tinha recolhido da internet. As frustrações acumuladas quando se está sozinho num país distante tendem a agigantar-se e confesso que fiquei desapontado quando percebi que não ia ver nada do que tinha programado, contando que a esperança de ver a aurora era ténue desde o início da viagem.
A visita à residência oficial do Pai Natal, em Rovaniemi, não sendo de todo uma prioridade para mim, foi das experiências mais decepcionantes da jornada. A pequena vila onde mora não passa de uma espécie de estação de serviço com casas de madeira enfeitadas, onde se vendem souvenirs, com um pequeno tracejado no chão que assinala a travessia do Círculo Polar Árctico. O Pai Natal, esse, tinha saído às 17 horas do expediente. Fiquei também a saber que as suas roupas tão características só são vermelhas por causa da Coca-Cola.
Entre renas que persegui (e que falhei redondamente ao tentar fotografar por causa da minha top quality machine que não tinha botão de zoom) e raposas que se esgueiraram à minha frente e entre factos curiosos com que me deparei, como Nokia ser uma cidade e o Rap das
Armas passar nas rádios locais, o melhor da minha viagem foram sem dúvida as pessoas que conheci, uma grande fatia graças às combinações pela internet.
As pessoas são sempre o melhor de todos os lugares e foi graças à amizade e boa vontade das que conheci que experimentei costumes locais como as tradicionais saunas seguidas de mergulhos em lagos semi-gelados (que espectáculo!), que assisti a um jogo de hóquei no gelo (o desporto nacional, equivalente ao futebol aqui) e que percebi o momento estranho que foi quando tentei beijar uma rapariga na cara em jeito de despedida, sendo que os finlandeses raramente se tocam quando se cumprimentam. Dificilmente experimentaria tudo isto de outra maneira, pelo menos não com a mesma graça com que eu experimentei.
Dos meus novos amigos despedi-me largando beijos e abraços e com promessas de visitas mútuas para breve. As minhas viagens são sempre recheadas de improvisações, objectivos e, algumas das vezes, insucessos. Todas as minhas metas para esta aventura falharam. Que todas as minhas desilusões sejam como esta.
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